Mostrando postagens com marcador minimalismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador minimalismo. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

...minimalismo e design minimalista...

Pronto. Deixo aqui o PDF final da minha pesquisa sobre arte e design minimalista. Devo confessar que não está totalmente acessível, pois envolve alguns pontos de análise semiótica, artistas específicos, movimentos do design que são necessários certo envolvimento, etc. Mas, de qualquer maneira, achei o resultado razoavelmente satisfatório, e por isso o disponibilizo por aqui.


Estou bastante feliz inclusive pois o conteúdo sobre esse tema em terras brasilis é ínfima. Mesmo fora daqui, design minimalista é um assunto meio nebuloso, cheio de preconceitos e senso comum. Boa leitura (caso a paciência o permita...).

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

...minimas notas...

Se há algo fascinante no mundo das artes, é justamente a capacidade de interação entre suas diversas "modalidades". É interessantíssimo como o expressionismo de Munch influenciou a arquitetura de Taut, ou como o concretismo remecheu-se também pelo campo da poesia. Há diversas "trocas" de cultura que aconteceram e acontecem por aí.

E é mais fascinante ainda numa pesquisa por determinado estilo, se o encontre nas demais artes, como aconteceu comigo e o minimalismo. Por pesquisar apenas nas artes plásticas, acabei por encontrá-lo na literatura, no design, na arquitetura, na poesia, e, mais impressionante ainda, na música.

No minimalismo, uma das suas características era a padronização das formas, repetição serial de objetos industriais, clareza comunicacional, etc. Na música encontramos elementos semelhantes, como a execução infindável de padrões de acordes, sem grandes malabarismos escalísticos, mas apenas o básico, podendo variar o andamento, como Carl Andre variava o número de elementos repetidos. Podem variar os instrumentos também, assim como se pode variar o material de uma estrutura primária, e assim vai.

Um dos expoentes da música minimalista é Philip Glass. Há diversas peças dele bastante interessantes, e algumas até famosas. Mas gostaria de chamar a atenção para duas em especial. uma delas chama-se "Islands", do album "Glassworks". Abaixo, a música. Aperte o play e veja como as coisas acontecem.



Aqui, encontramos as mesmas características listadas acima. Há um padrão crescente de notas, que se repetem, variando o acorde sobre os quais se realizam. Sobre esses padrões encontramos um violino cantando longas e suaves notas, condizentes com os acordes sobre os quais estão inseridos. Em determinado momento, soma-se um violino, depois outro instrumento, mas sem nunca perder o principio do todo, que é a repetição, pouca variação, monotonia.



Aqui vai outro exemplo do mesmo artista. Chama-se "Einstein on the Beach/ act.I", da ópera "Einstein on the Beach". É uma música bastante longa, e interessante. Aqui, Philip Glass lanca mão de uma repetição quase que eletrônica, com um andamento às vezes muito acelerado, e instumentos variados. Começa pequeno, mas logo se acrescem ao conjunto vozes humanas, uma flauta, cantando sobre a base repetitiva, que ecoa da mesma maneira que na música anterior, sempre a mesma durante a música toda.

Já nessa, o que chama a atenção é justamente as vozes que cantam. Nelas, as palavras são as próprias notas, como podemos ver no trecho 3:45, onde a voz pronuncia literalmente "lá, si, lá, si, lá, si...", ou seja, a voz é a própria nota, assim como a palavra é a nota. Não há sentido explícito por parte do artista: as notas são o que elas são, uma depois da outra. Certamente, sobre essa música, o artista Frank Stella diria "what your hear is what you hear" (o que você ouve é o que você ouve). No entanto, há algo a mais na música que nos remete a outro universo. Conforme ouvimos as vozes cantando as notas, necessariamente as ligamos a palavras. Mentalizamos verbos, substantivos, adjetivos, ou qualquer outra classe de palavra se repetindo, repetindo e dizendo coisas, como quando ouvimos a máquina de lavar na sua monotonia também dizendo algo. No trecho que ouço agora, ouço a frase cheia de sentido "Não sei sentar, não sei sentar, não sei sentar...". É claro que é um absurdo, pois não se diz nada do tipo! Mas é o mesmo absurdo que se tentar encontrar um sentido literal numa obra abstrata... São ilusões que nossa mente nos prega. Nada mais que isso.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

...agrupamento minimo...

Continuando a coleção de posts sobre artistas minimalistas e pós-minimalistas, hoje encontrei algo bastante interessante. Essa obra, Stack, 1975, é do artista Tony Cragg, normalmente alocado no grupo dos pós-minimalistas. E aqui podemos encontrar um exemplo da influência de Rauschenberg nesse movimento.

Já sabemos que uma das características do movimento é a tentativa de universalização da forma através de formas puras, básicas, como o é o cubo, a esfera, o cilindro (formas já apontadas por cezanne como constituintes de todas as outras do mundo). E outro elemento característico do minimalismo é a apropriação de materiais industriais na construção de suas obras. Nesse trabalho encontramos ambas as características de certa forma, mas ao mesmo tempo encontramos outra, mais pertencente ao pós-minimalismo, que é o conceito por trás da obra. Podemos observar que a forma é de um cubo, que sua construção está de tal forma juntada que a gestalt geral do conjunto é algo que chama a tenção pela paradoxal uniformidade de texturas, de formas internas e de paleta cromática. Essa diversidade de materiais provém justamente dos objetos coletados pelo artista para a montagem da obra: são todos objetos ready-mades da construção. São blocos, cimento, madeira, etc., ou seja, materiais que constituem o mundo, que são a presença do ordenamento do homem na terra, do ordenamento do espaço, tão estudado pelos minimalistas. É essa característca de apropriação e de conversa com a interferência do homem no meio que aproximam os trabalhos de tony Cragg, de Iran do Espírito Santo e de Damian Ortega. Ambos trabalham com esse mesmo tema, seja pelos materiais, seja pela ferramenta, seja pela ação.
Outra característica compositiva da obra é o modo como Cragg faz para organizar seus materiais: os coloca todos horizontais, mantendo o equilíbrio com a altura da escultura (2m).
Para mais trabalhos do artista, visite o site da Tate Modern.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

...formas mínimas...

Voltando à arte contemporânea, em especial ao minimalismo, mais especificamente no Brasil, tratemos do famoso Iran do Espírito Santo. O artista representou nosso país ano passado na Bienal de Veneza, e continua expondo mundo afora. Seu trabalho se calca bastante na percepção dos espaços, mais especificamente, em objetos e situações ordinárias, mas muitas vezes com metáforas bastante sutis e bem pensadas.

Copo d'Agua, 2006, é uma de suas obras mais famosas. O que se observa é a distorção visual que um objeto simples causa, um objeto cotidiano, ordinário, imperceptível senão num contexto como de uma exposição. E justamente é esse contexto que nos permite perceber sua beleza. A transparência imaculada, a simetria absoluta, a ausência de qualquer ruído visual, a sombra projetada com um foco brilhante próximo à base, o molde da realidade de acordo com suas
próprias regras, a limpeza de forma, a serenidade da inexistência de movimento, e finalmente a simplicidade absoluta contida nele são alguns dos elementos visuais aos quais estamos expostos diariamente, e nem percebemos. Não há como passar desapercebido de obra tão paradoxalmente grande.
Lembra até mesmo o famoso trecho da música do Gilberto Gil, cantada por Chico Buarque, Copo Vazio, que diz:
"É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar."
Tudo é ocupado por algo, preenchido, seja por matéria, seja por sentidos, significados, relações, ambos os casos modificando o atuar do homem no mundo. Uma forte ideologia trabalha sobre o homem tanto quanto uma pancada num galho de árvore. O mundo físico e o mundo subjetivo são faces de uma mesma moeda, sempre juntos, funcionando ao "acaso", influenciando-se mutuamente e propondo infinitas possibilidades de ação, ou ausência de.

Outro belíssimo trabalho do artista é Sem Título, de 2004. Uma "rodela" de uma parede, um deslocamento material de uma situação tão sólida quanto uma casa, que ao mesmo tempo mostra-se frágil na forma de círculo, impondo certa tensão estática, já que qualquer mínimo toque o faria movimentar-se impreterivelmente. Expõe a estrutura básica construtiva do meio (o tijolo), e contrapões sua forma paralelepípeda ao recorde cilíndrico onde se encontra. Se fica a imaginar o local de onde foi tirado, o espaço aberto criado, e o modo como se o fez. Novamente o objeto é cotidiano, presente na vida de absolutamente todos, delocado de seu meio natural para que se ganhe vida por si só, por suas características visuais e compositivas. Mesmo o aspecto rude do tijolo consegue contrastar com a elementariedade de sua estrutura primária, bem como com a perfeição do recorte limiar do círculo, e de seu entorno imaculado, a sala da galeria.

Coloco aqui três links: um para seu espaço no site da Galeria Fortes Vilaça, outro para um texto em inglês sobre o artista, e um último para mais fotos de outra exposição do artista.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

...pós-minimalismo...

Devo pedir desculpas... Sim. Conheci faz pouco tempo um "novo" termo (entre aspas porque, afinal, tudo hoje em dia possui um 'pós' dele mesmo...daqui a meses, teremos os pós-blogs, pós-windows, pós-sorvete-de-limão...)... não sabia que existia o pós-minimalismo, mas de qualquer maneira, não muda muito os tópicos anteriores.

O pós-minimalismo é a apropriação das propostas estéticas e estilisticas do minimalismo, adicionando um "quê" conceitual do artista. Em geral, as obras minimalistas são, como colocado anteriormente, inserções estéticas em ambientes específicos, onde a obra é a percepção fenomenológica do observador em relação à obra. Isso em linhas bastante gerais. O pós minimalismo é a expanção desse universo, com um conceito inerente ao objeto. Exemplos de artistas pós-minimalistas: Eva Hesse (possui um post nesse blog), Richard Serra, Bruce Naumann, etc. Bem que eu desconfiava que a proposta deles acabava transgredindo o basicão do minimalismo puro...

O trabalho, Head Fountain, ao lado é do artista Bruce Naumann, e foi apresentado na Bienal de Veneza em 2007. O artista possui forte ligação com a "process art", arte do processo, onde, obviamente, o processo do fazer artístico é o fundamental, a obra de arte está na ação. Daí sua ligação com o minimalismo, primeiro movimento a chamar a atenção à "inter-ação" entre artista, obra e ambiente.
Trata-se de um trabalho bastante enigmático, de, não nego, difícil leitura. E demorou um bom tempo até eu chegar a alguma proposta de idéia do trabalho. É, no entanto, um trabalho presencial, já que multi-sensorial (em especial visual e auditivo).
A fonte, o objeto fonte, é tido como uma das primeiras formas de arte pública, e consequentemente, remete a universos públicos, com certo grau de interação de pessoas. A obra, no entanto, é composta de uma única pessoa, ou pelo menos o indício de sua presença em algum momento. Sua marca, seu rosto, sua identidade. A mascara possui uma mangueira na boca, que incessantemente, despeja água dentro de um tanque, onde há uma torneira, na qual a mangueira se liga. O movimento claramente é infinito, a água gira no mecanismo, a que cai é a mesma que logo mais sairá da torneira.
O jogo interessante no trabalho é verificar a ação total. A água sai pela boca, ou entra pela boca (já que se trata de um negativo de um rosto)? Trata-se de um interior, ou exterior? Onde é um, onde é outro? Ou melhor, é tudo questão de referencial? É tudo relativo? Qual é a verdade? De qualquer forma, a verdade está na cara: uma mascara de gesso, com uma mangueira na boca, despejando água num tanque. Alguém duvida disso? E, ligando ao fato de ser uma fonte de uma pessoa, a obra funciona como um "diálogo solitário", ou seja, uma pessoa que absorve o que "sai" apenas da própria boca. Ou isso também depende do referencial?
Para terminar, uma frase do artista: "If I was an artist and I was in the studio, then whatever I was doing in the studio must be art. At this point art became more of an activity and less of a product." - Bruce Naumann

segunda-feira, 19 de maio de 2008

...tal pai, tal filho...

Constantin Brancusi, há quem diga, paradoxalmente, foi um minimalista. Bobagem. Seus trabalhos datam do início do século XX, contemporâneo a Rodin. No contexto em que se encontrava, é impossível o encaixar em alguma vanguarda. Não é cubista, nem expressionista, menos ainda geométrico, não é futurista, etc. Sua obra é única.

É comumente associado ao minimalismo pela sua linguagem limpa, sem adornos, sem firulas, nem qualquer coisa que ditraia o olhar do observador à forma e conteúdos básicos de seus trabalhos. No entanto, a linguagem industrial, ou a serialização, ou mesmo o diálogo da obra com o entorno, não existem em geral nos trabalhs de Brancusi. Há materiais que se aproximam mais, mas um link que poderia chamá-lo de minimalista, não.

Mas também não se pode negar que tenha sido forte influência a artistas da estética minimal, como o próprio Carl Andre afirma (este desenvolveu trabalhos que remetiam e se relacionavam com a coluna infinita de brancusi, por exemplo). Já foi postado algo sobre ele.

Esse trabalho do artista chama-se "Passaro no Espaço". Possui variações em outros materiais do mármore. A beleza do trabalho está na simplicidade da forma como brancusi representa uma ave. Não a expõe claramente ao observador, não escancara seu conteúdo, mas deixa apenas signos do que seria. Ave no espaço remete instantaneamente a vôo, a movimento, mas ao mesmo tempo, estabilidade, graça. O sígno escolhido pelo artista para expressar todas essas características é precisamente um rasgo no espaço, um traço de um momento instantâneo que uma ave cortaria determinada região, associado a leveza do próprio material que, embora seja pedra, é leve ao olhar, e liso e quase que macio ao tato visual. O olhar vai deslizando, escorregando pelo entorno do trabalho, que possui linhas bastante suaves, mas decididas.

Há um site no nome do homem, mas que servirá apenas pela sua história e livros sobre ele...


E aqui, link para post no Blog do Noblat no qual usa trecho desse post sobre Brancusi, complementando-o com um pouco da sua história.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

...minimalismo tupiniquim...

O título é apenas uma ironia. O Neoconcretismo não realmente é uma versão brasileira do movimento americano, mas partilha de muitos pontos. Um deles é a crítica ao positivismo na arte, defendendo a fenomenologia, dessa forma assumindo ao trabalho artístico características subjetivas tanto inerentes ao material quanto ao observador que visita a exposição.


O Neoconcretismo é a famosa briga da arte no rio contra a paulistana, onde dominavam os concretos. Picuinhas à parte, o Neoconcretismo é praticamente a primeira tendência moderna completamente brasileira, desenvolvida a partir de tendências européias.

Os pontos divergentes do minimalismo americano e do neoconcretismo é, além de outras coisas, no ponto quanto ao papel da indústria no trabalho. Enquanto os minimalistas lançavam mão dessa não só em seus materiais, mas no modo de contruílas, os neoconcretos negam a indústria e seu papel dentro de uma obra de arte, reagindo dessa forma a um dos pontos do construtivismo.

Ambos também assumem em suas obras o quesito tempo. Os construtivistas, como Naum Gabo, o fizeram introduzindo motores e movimento em suas obras. Já o minimal e o neoconcreto o fizeram introduzindo o observador no contexto da obra, sendo seu tempo de interação e de observação da obra o ponto diferencial.

A obra acima é de Hélio Oiticica, mas não encontrei seu nome. Visitem a página da sua retrospectiva que aconteceu na Tate Modern , em londres.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

...objetos expressivos...

Não estou postando tanto quanto queria e deveria, mas... Vamos que vamos! Prometo no próximo post colocar algum artista português, já que Portugal tem entrado razoavelmente bastante nesse deficiente blog. Por enquanto, voltemos ao minimalismo.

Pode-se considerar Jasper Johns como um dos pais do minimalismo, junto com Robert Rauschenberg, artsta comentado em post anterior. Ambos bastante influenciados por John Cage, trabalham com um tipo de arte chamada Assemblages, que são colagens com elementos tridimensionais. Essa obra ao lado,
target with four faces, junto com a bandeira americana são as mais conhecidas obras de Johns. Sua obra influenciou fortemente a pop art, assim como o minimalismo, mas ele mesmo não fez parte de corrente artistica nenhuma.

O ponto de contato entre John e o minimalismo está como que na "dessacralização"da obra de arte. Johns cria objetos, abre mão da pintura pura, ou da escultura pura, assim como o minimalismo. No entanto, coloca em sua obra seus traços pessoais, afinal, seus alvos são pintados à mão, assim como seus elementos 3D. O minimalismo, pelo contrário, joga a execução da obra à indústria, pois querem a padronização e a serialização.

No trabalho acima efetua essa mistura de elementos, colocando juntos um alvo pintado por ele mesmo e quatro rostos de pessoas moldados em gesso. Embora há quem diga que o próprio artista disse não haver significado algum por trás do trabalho, este acaba remetendo a coisas que podem ser interpretadas e oferecer um sentido maior ao trabalho.

Na parte superior, quatro rostos. O que chama a atenção é não possuirem olhos, tornando-se rostos "assexuados", e inexpressivos. Acabam contrastando com o alvo abaixo, que por possuir os traços do artista, ganham grande expressividade, extravasando o que seria um simples alvo, onde se atiram dardos, e de certa forma, ironizando o expressionismo abstrato americano. Ironizando porque, ao trabalhar com a expressão, John a utiliza num "elemento" geométrico e frio como um alvo, algo por si inexpressivo. Mistura seu mundo subjetivo ao objetivismo convencional que se coloca num "alvo". E, o contrário do que colocava o expressionismo abstrato, onde a expressão é algo do homem e inerente a ele, John tira todo sentimento de seus rostos, tornando-os como que os próprios alvos: homens sem expressão não aparentam sofrer com as ações externas. Dardos jogados batem, prendem, furam, mas aparentemente não mundam sua condição geral, a não ser que se olhe de perto, onde marcas permanecerão indefinidamente. Assim, a verdadeira expressão humana não esta propriamente na sua exteriorização, pois exteriorizar algo subjetivo é tentar objetivar o sentimento. A verdadeira expressão está dentro do homem, e lá permanece.

Para mais sobre John, vale entrar no site do MoMA.

terça-feira, 8 de abril de 2008

...a ordem do caos...

Eva Hesse, nascida em 1936 e falecida em 70, é uma das artistas que mais mudaram e contribuiram para o panorama artístico de sua época. Com trabalhos nos mais diversos suportes, com os mais diversos materiais, sepre buscava a transgressão do que a limitava na arte e na sociedade.

Acessão II, 1967 , é um trabalho que mostra bem a força da artista. Composto de uma caixa Galvanizada, com milhares de tubos de borracha atrelados à suas paredes, é geralmente interpretado com um "quê" de feminilidade, um algo como um útero, ou algo que o valha.
Em vida, a artista nessa busca pela individualidade na obra de arte questionava os "modismos" artisticos de seu período, ou seja, o expressionismo abstrato, minimalismo e arte conceitual, em linhas gerais. Ora, Acessão II (acessão: ato ou efeito de acrescentar, de aumentar; adição, união; Dicionário Houaiss) pode ser lida de certo modo como uma reação a essas correntes, não de reprovação, mas de questionamento.
A obra é constituida de um cubo aberto na área superior, com diversos tubos plásticos penetrados em suas paredes. Do ponto de vista dos materiais, são todos industriais, como na temática minimalista. Seu exterior é organizado de maneira bastante rígida, com linhas verticais e horizintais de "cabeças" de tubos plásticos, formando uma bela textura. No entanto, ao se observar do lado de dentro, impera a desordem, peças por sobre as outras, dependuradas, tortas, pendendo, eretas, etc, parecendo mesmo um paradoxo com relação à imagem exterior. Seria como que um questionamento do que se tem por "ordem" no universo minimalista, ou aleatório no universo expressionista. Ordem exterior nem sempre implica em ordem interior. E desordem interior não necessariamente se expõe como desordem.
Essa proposição deixa uma dúvida quanto à temática minimalista. Há autores que colocam o minimalismo como continuação do movimento moderno, onde a racionalidade é a base do trabalho. Há também a vertente daqueles, como Rosalind Krauss, que propõem o contrário: a ordem exterior vem do ambiente caótico interior. A obra de Eva Hesse acaba pondo em cheque esse racionalismo minimal, e essa aleatóriedade organizada. Ainda há que se chegar a conclusões melhores sobre o assunto, afinal, é para isso que estou na pesquisa (Meu Deus! Mais pergunta em aberto!...)
Por enquanto, conheçam mais da história da artista no site da UOL em sua passada pela nossa bienal.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

...paradoxo do espaço...


José Spaniol, artista brasileiro nascido em 1960 e formado em 1982 pela FAAP, é um artista daqueles que sua linguagem se encontra num grupo solitário: a dela mesma. Com uma vasta gama de abordagens artísticas, com diversos materiais, escalas, etc, possui uma unidade formal/conceitual consigo mesmo, sendo difícil classificá-lo num grupo. Mas não é de classificações que a arte vive. Mas de obras de grandes artistas.

Colunas, de 2003, é um fabuloso trabalho que prefere se manter como que escondido ao invés de roubar a cena. Segundo o próprio artista, ao ser convidado para expor nessa sala, já sabia o que faria com ela: a sala possuia 6 colunas desalinhadas e aleatórias, que há muito incomodavam o artista do seu propósito de ser daquela maneira. Então resolveu fazer nela Colunas. Acrescentou mais 30 colunas à sala, tomando o cuidado de deixá-las visualmente idênticas às já exitentes na sala. O resultado é um trabalho que some. Camufla-se sem chamar a atenção a si, mas a outros elementos da própria sala.
Comparo essa obra à famosa Coluna Infinita, de Brancusi. A diferença está na ordem das palavras: não culunas infinitas, mas infinitas colunas. Diferente do gigante mastro a céu aberto, as colunas de José Spaniol se restringem a uma sala, não ligam o céu à terra, idéia do infinito, mas sustentam uma área já humanizada, e atuam no sentido de mantê-la habitável. Mantém-se no plano real e não numa tentativa espiritual. Não tenta elevar o olhar do observador ao alto, impressionando-o com algo magnânimo, mas o força a observar simplesmente o espaço, justamente pelo fato de sua "presença ausente". Um paradoxo apontado pelo artista é o de que "quanto mais colunas, mais vazio ficava o espaço", e quanto mais matéria se coloca, mais o imaterial se revela.
O trabalho chama atenção ao espaço, matéria própria dos minimalistas. O grande trunfo da obra de José Spaniol é que ele nos mostra algo já óbvio, mas que a ficha não costuma cair: o grande trabalho do espaço se faz através da arquitetura. A Arquitetura demarca o espaço te forma tão ou mais eficiente que qualquer obra minimalista produzida, pois condicionam de maneira inconsciente a vivência do homem, semelhante trabalho de Richard Serra, que em suas obras de certa forma "força" o espectador a ter uma reação inconsciente ao interagir com suas obras.
Para mais obras de José Spaniol, visite seu site.

terça-feira, 1 de abril de 2008

...pesquisa espacial...

Depois de um longo período sem novas postagens por conta de um serviço que consumia grande parte do meu tempo, retorno às postagens. Espero que agora mais constante que antes.


E por conta de um novo projeto que inicio agora, postarei mais constantemente sobre artistas minimalistas, já que será meu tema de pesquisa por um bom tempo. Mesmo assim, obras pré-minimalistas, pós-minimalistas, etc, serão comentadas pois participam desse universo tão rico e fascinante da minimal art.

Donald Judd é considerado um dos primeiros artistas a iniciar o movimento minilamista. Porém, ele, entre outros artistas de sua época, não se consideravam como tal. No entanto atribuir uma "classificação" a artistas não é simplesmente para separá-los num grupo e como que retirá-los do grande campo geral das artes plásticas, mas para facilitar o entendimento de seus trabalhos, uma vez que há características mais gerais em seus trabalhos e outras mais específicas, que os diferem dos demais.

O trabalho de Judd, assim como dos outros artistas minimalistas, está intimamente ligado ao processo industrial: objetos seriados, com materiais não comuns ao universo artístico, mas ao universo industrial e do cotidiano das pessoas. No trabalho ao lado, "Sem título", é possível observar essas caacterísticas: "quadrados" de mesmo tamanho, de disposições idênticas, e intervalados por espaços milimetricamente arranjados. Seu material é o alumínio nas laterais das peças, e acrílico nas bases e coberturas, permitindo uma visualização completa dos objetos: tanto interna quanto externa. O uso do acrílico colorido demonstra uma das pesquisas visuais próprias de Judd: a percepção espacial em de meios não usuais. A luz penetra nas peças, mas pela disposição em pilha dos objetos, a sombra predomina, e a incidência da luz é diferente em cada objeto, a pesar de serem iguais. Segundo David Batchelor, essa é uma constante nos trabalhos de Judd: muitos deles são parecidíssimos, mas não iguais, pois o que Judd pretende é mostrar como diversos materiais em diversas cores e diversas formas interagem entre si e o ambiente. Não há um modelo de trabalho, um padrão, mas diversos trabalhos que interagem de certa maneira entre si, mantendo sua leitura própria e única. Para ilustrar esse ponto, acrescentei uma foto da mesma linha de esculutras em pilha. É clara a divergência que cada peça possui e as diferentes formas que mabas interagem com o ambiente.

Para mais trabalhos de Judd, visitem o site da Judd Foundation.



sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

...minimalismo mexicano...

Damián Ortega, artista mexicano, participou da nossa Bienal de São Paulo em 2006, curadoria de Lisette Lagnado. Artista minimalista, desenvolveu diversos trabalhos que dialogam profundamente com o universo de artistas como Donald Judd e Sol LeWitt.

Nesse trabalho, chamado Controller of the Universe, de 2007, Ortega coleta diversas ferramentas e as pendura no espaço expositivo cuidadosamente, apontando cada objeto no sentido oposto ao centro imaginário da construção geral. Combinando o nome do trabalho à sua visualidade, logo se percebe as intenções do artista. Ortega relaciona todo esse ferramentário à explosão inicial, o Big Bang, movimento inicial de modelagem do universo, momento que definiu toda história subsequente. No caso da explosão, tem-se a idéia de aleatoriedade, uma vez que uma explosão é incontrolável. As massas e matérias resultantes da explosão são num primeiro momento advindas do acaso.
A "explosão" de Ortega, pelo contrário, seria a explosão do controle, ou seja, as ferramentas que botariam ordem na desordem do Big Bang. São os objetos geradores de ordem, controladores do ambiente.
Claro, não há como não pensar que a obra poderia ser uma ironia a tudo isso que foi dito. O que acaba sendo mais ordeiro, o mundo de, origem aleatória, pré-humano; ou o caos urbano "ordenado" pelo homem?
Para mais imagens da obra, visite o site White Cube, na página do artista.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

...meticulosamente desalinhado...

James Siena é daqueles artistas que, sem conhecer um pequeno panorama da arte moderna, seriam indecifrável. Ainda atuante, o artista possui influências fortes e claras do expressionismo abstrato, da arte de rua e do minimalismo americano.

Essa tela, Global Key in Four Colors, de 2004, é uma boa escolha para análise. Possui uma ligação com a arquitetura, já que assemelha-se com uma cidade vista de cima, mas não deve ser lido dessa maneira. Sua relação com a arquitetura é mais racional que visual: sua tela é constituida de quadrados dentro de quadrados, subconjuntos do mesmo elemento. Possui uma linguagem formal que remete à repetição de sistemas: casas sobre casas, dentro de casas, acima de casas, multiplicadas, somadas, subtraidas, mas todas casas.
Observando-se atentamente, além de repetir-se um dentro do outro, os quadrantes são constituidos dos mesmos conjuntos de sistemas: numerando no sentido horário a partir do superior esquerdo de 1 a 4, o quadrante 4 é igual ao 1, espelhado verticalmente e horizontalmente. O mesmo os pequenos subconjuntos se repetem a cada quadro: um inteiro, a metade, a metade da metade, etc... Essa característica da repetição e da modulação pertence ao minimalismo americano, comentado brevemente no post sobre Flavin. Outro elemento que o liga ao movimento americano é sua rigidêz formal: embora feito com traços livres e desalinhados, o quadro é feito sobre uma rígida malha construtiva. Primeiro quatro, depois cada quarto em quatro, e assim por diante. Daí vem o nome do quadro: Global Key, como uma "Chave Global", numa tradução literal: o mundo constitui-se de sistemas e subsistemas, todos feitos da mesma "matéria prima" (o homem e suas inter-relações), sendo que isso pode ser estendido para outras áreas (arquitetura, cultura, biologia, citologia, etc...), sem acabar sendo simplista, pois se acaba dando bastante input para o pensamento.
Não existem sites em português sobre o artista, portanto, segue link para um artigo do New York Times.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

...luz e espaço...


No primeiro post sobre arte propriamente dito, gostaria de escrever sobre um dos grandes artistas do Movimento Minimalista americano, Dan Flavin. O minimalismo foi um movimento que vigorou mais fortemente na década de 60, com artistas como Donald Judd, Carl Andre, Andre Buren, entre outros monstros. As obras minimalistas funcionam como intervenções espaciais, trabalhando com volumes, formas, luz e o espaço em si. Derivando do construtivismo, que já trabalhava nesse assunto de utilização do espaço, e incorporando elementos do Expressionismo Abstrato de Pollock, como a aleatoriedade, o minimalismo atua consequentemente de forma bastante intima com a arquitetura em si, que é a organização de espaços por excelência.
No caso de Flavin, seu material é a luz. Utiliza tubos de neon, coloridos ou branco, compondo no espaço com o material básico e intermediário de toda obra de arte: a luz. Sem luz, não se pode observar uma tela de Kansdinsky ou uma escultura de Rodin. Flavin não. Sua matéria é a luz própriamente dita, sem intermediários. E seu trabalho está na interação da luz com os ambientes onde são montados, portanto, são Site-specific, feitas para um lugar.
Um dos pontos interessantes de Flavin é que, a meu ver, resolve um dos problemas chaves do impressionismo, o abre alas do modernismo. Aqueles buscavam transmitir na tela suas impressões dos ambientes e paisagens. Flavin deixa que o próprio espectador tenha suas impressões do ambiente e das alterações que a luz causa neles, tendo, portanto, uma experiência tanto visual quanto espacial sem intermediários de nenhuma natureza.
Morreu em 1996, em New York, e possui um museu em seu nome, o Dan Flavin Art Institute, também em New York.