No começo desse ano,
comprei uma revista que me trouxe um artigo curioso. Intitulava-se "O fim da arte", e eu pensei "
Poxa! Mais um?". Esse, na essência é igual a todos (ou quase todos, já que para
Arthur Danto, o fim da arte é a simplesmente a arte contemporânea, o que para ele é muito bom), mas bate em outras teclas. O artigo é de
Roger Kimball, crítico de arte, e sua tadução de Cristian Clemente, licenciado em Letras pela USP.
Um dos pontos onde
Kimball bate insistentemente a tecla é na ausência da beleza na arte de hoje, bem como a importância da religião para a arte como um todo, e que sua falta traz consequências (olha o novo
português aí, gente!) graves, e uma delas eu concordo, que seria o endeusamento do artista, que acaba superior aos demais, e junto disso desproporcionalidades, como as centenas de milhões que
Damian Hirst ganhou em seu último leilão (
Kimball pelo jeito o detesta, eu até que gosto, há o que se pensar em sua obra, mas certamente não vale tudo isso).
Ok, compreendo o que escreve
Kimball, mas não posso concordar. Primeiro porque a beleza não é apenas visual (prometo estudar essa parte mais a fundo, mas se não me engano, na concepção clássica de beleza há três pontos que se deve levar em consideração, os quais não me recordo agora). Encontramos beleza, por exemplo, na literatura, ou na música. E onde estaria o problema de a arte lançar mão de conceitos para fazer artes plásticas? Indo mais longe, podemos afirmar com bom grau de certeza que uma arte sem conceito é vazia, pura superficialidade que mal pode ser chamada de arte, por mais apurada que seja a técnica do artista.
E esse é um ponto interessante. Em geral, as pessoas procuram ver na arte a realidade a que estão acostumadas. Ortega y Gasset, em seu fabuloso livro
A desumanização da Arte, nos coloca justamente isso: As pessoas "compreendem" a arte figurativa porque se assemelha a sua vivência
cotidiana, o que é um erro. Escreve:
"Para poder deleitar-se com o retrato equestre de Carlos V, de Tiziano, é
condição ineludível que não vejamos ali Carlos V em pessoa, autêntico e vivo,
mas sim em seu lugar devemos ver apenas um retrato, uma imagem irreal, uma
ficção".
Isso permanece válido ainda hoje. A metáfora é, portanto, intrínseca à arte. Falar de algo por meio de
sígnos é parte dela, e a ausência desse ponto faz com que o
objeto deixe de ser arte para ser ele mesmo (aqui um leitor assíduo do blog, se é que existe, pode me questionar a respeito do
Minimalismo, o qual colocava sobre si que "
what you see is
what you see". Falarei sobre isso num
post seguinte).
Quanto à religião, Kimball mesmo parece dar uma resposta ao que escreve:
"Não existe uma arte particularmente católica,afirma Jones [David Jones, poeta
católico do século XX], tal como não existe "uma ciência hidráulica católica, um
sistema vascular católico ou um triângulo equilátero católico". (...) Auden pensava da mesma maneira:(...) Apenas o que pode haver é um espírito cristão, segundo o qual um artista ou cientista age ou não"."
A religião é um dos aspectos humanos entre outros (embora possa ser tido como um dos mais importantes, já que rege todos aspectos internos e externos do agir do homem), e o livre arbítrio do homem permite que se o leve em consideração ou não. Entretanto, os pontos essenciais do homem ainda permanecem, e todos temos o que dizer, portanto, material para realizar uma ação artística. Inclusive, a arte não religiosa é índice de uma cultura também rica, e passível de análise da sociedade e seu tempo.
Além disso, não há porque tentar reduzir tudo a dois pontos de vista, unificar todos os desejos artísticos sob os rótulos de "arte religiosa" e "arte não religiosa", já que a realidade é muito mais rica que apenas esses dois pontos, e as nuances que existem entre um extremo e outro não podem ser deixados de lado, e menos ainda forçados a permanecer por debaixo desses dois títulos.
O problema do artigo de Kimball é que ataca para todos os lados, sem apresentar exemplos palpáveis do que fala. David Sylvester, por outro lado, é bem mais claro nesse ponto. Observe o texto a seguir:
"Não se há de negar que posso atribuir ao indivíduo de cultura média as noções de
que a arte do século XX é: I)produto de indivíduos isolados que deixam de dar
expressão à consciência e aos gostos da sociedade como um todo; II)
hiperespecializada, desprovida da amplitude e da complexidade do que veio antes,
propensa a sacrificar importantes atributos da arte para poder desenvolver
obsessões tacanhas até níveis extremos; III) por demais preocupada, em sua
autoconsciência, com questões de estilo e com a obtençãod e originalidade. Tudo
isso vem ao caso, e o que se pode dizer a respeito é o seguinte: em primeiro
lugar, a arte do nosso tempo pode não ser muito boa se comparada com o
supra-sumo, mas foram suas próprias limitações que a fizeram dar uma
contribuição singular para o corpus da arte (e isso é assumir que a
singularidade é uma qualidade necessariamente valiosa); em segundo lugar, as
limitações da nossa arte refletem certas fraquezas da nossa sociedade, e, se a
nossa sociedade fosse diferente, nossa arte poderia ser melhor. (...) Se dizem
que o último Rothko não é um quadro tão bom quanto um Monet, isso não é uma
condenação de Rothko, mas uma definição de arte"."
A contribuição nesse trecho que Sylvester nos fornece é muito maior do que a do artigo completo de Kimball. O próprio Papa João Paulo II escreveu em sua carta aos artístas: "...a História da Arte não é apenas uma história de obras, mas também de homens", e se poderia escrever que a própria História da Arte
é a História dos Homens, e merece ser contada.