terça-feira, 9 de dezembro de 2008

...espaços cheios/vazios...

Encerrou sábado agora, dia 06/12, a 28a Bienal de São Paulo, uma das mais controversas exposições dos últimos tempos pela abordagem dos curadores, e a decisão de deixar vazio o segundo andar inteiro do prédio projetado pelo Niemeyer.
Mas como já comentei essa parte num post passado, aqui colocarei as minhas impressões após visitar a Bienal. Visitei a tempo de ver a bela performance Maurício Ianês "A Bondade de estranhos", que também causou certos comentários por aí a fora (muitos infelizmente mais focados na sua nudez inicial do que na sua atitude completa). O artista em suas performances normalmente foca no ponto da comunicação humana, mas nessa obra também é possível encontrar certa ironia social. O artista passou 2 semanas completas apenas do que recebeu das pessoas, e apesar de em determinado momento ter passado mal e vomitado, o "saldo" do que recebeu é bastante impressionante. Basta dar uma olhada nas fotos. A ironia está na pergunta: o que faz com que um artista que não corre perigo de vida algum (ele poderia desistir a qualquer momento, e pensou em vazê-lo) receba tantas doações para sua sobrevivência enquanto diversas pessoas morrem de fome na rua? Esse ponto me chamou bastante a atenção, até mesmo pelos depoismentos de pessoas que conversavam como Maurício, que lhe confiava segredos, que choraram, etc. Essas pessoas fariam o mesmo com um morador de rua? Esse certo grau de hipocrisia (que não pode ser generalizado) aponta para certas diferenças contextuais que se fazem bastante interessante, nos fazendo perguntar o por quê disso. Será um certo grau de "humanidade" no protagonista, coisa que não aparentaria haver num morador de rua, ou o local (uma exposição de arte), ou qual será?
Outro trabalho bastante bom também foi o do Iran do Espírito Santo (já falei dele em post passado também). A obra chama-se "Buraco de Fechadura", e data de 1999. Influenciado pelo movimento minimalista, aqui o artista trabalha com a questão espacial, lançando mão de uma das características do material utilizado, a reflexibilidade, para criar a ilusão de um ambiente interno a ele. O nome "Buraco de Fechadura" é como uma ironia ao resultado da obra. De longe, ela aparenta uma fenda na parede, mas na medida que nos aproximamos, seu caráter tridimensional se revela, bem como o ambiente reflexo, que na realidade é o próprio entorno do observador. A possibilidade de exploração do "além-parede" que uma fechadura normalmente possibilitam se mostra fracassada, revelando apenas a realidade do próprio observador, apresentada de maneira distorcida, nova a ele. Ele pode apenas observar o que já conhece, apenas de forma nova.

Outros trabalhos também se mostraram interessantes, como as máquinas de escrever que apenas escreviam pontos, ou os vídeos das performances da artista Marina Abramovic, e outros vídeos que se locavam no térreo da exposição. Outros trabalhos se mostraram simplórios, superficiais, por demais datados e auto-referentes, que não me pareceram relevantes o suficiente pro contexto, mesmo que pensados para ele. É o caso do trabalho da Valeska Soares (artista também já comentada aqui, embora daquela vez ela tivesse feito um trabalho bastante melhor), que colocou próximo à entrada da exposição um amontoado de letras em papel, todas sobre um grande tapete representando a capa do catálogo da primeira Bienal de São Paulo. A artista pegou o parágrafo introdutório do catálogo, pegou suas letras, as embaralhou e amontoou por sobre ele, como se estas estivessem "fugindo" dele, para uma nova avaliação do que seria essa bienal, uma nova leitura a ser feita. De fato, é essa a proposta da bienal em si, uma releitura do formato bienal, etc., mas a obra em si não possui força, chegando a ser literal demais, sem um elemento "surpresa", apenas uma figuração do conceito dos curadores. E é nesse ponto que peca. Fora que, a meu ver, esses trabalhos "encomendados", que não partem do artista diretamente, mas são feitos sobre certo pedido, são sempre inferiores se comparados à produção inerente ao próprio artista. Enfim, essa é uma visão que poderia ser discutida, trata-se apenas de uma impressão que tive.

Há outros trabalhos bastante bons, mas como o post já se prolonga, gostaria apenas de terminar comentando a exposição em si. Esse vazio colocado no meio da exposição, funcionando como uma quebra, pois o visitante vem de um andar com obras e ao passar para outro, não possui nada, só podendo encontrar mais no terceiro andar. Ou seja, esse andar foi passagem obrigatória. Eu aceito a idéia por detrás dele, mas não a justificativa "espacial" apresentada pela curadora, de observar o espaço projetado por Niemeyer no seu estado puro, a luz entrando no prédio etc. Essa é uma tentativa falha de conceitualização sobre algo, ou mesmo de justificar esse algo, e muito forçada. Se o vazio é o ponto de apoio, que seja ele, não chamemos a atenção para o espaço. Vazio é vazio, e a metáfora se fez muito bem, não precisando de mais explicações. E assim como essa explicação, grande parte da exposição também se mostrou precária. Descuidos de montagem, de locais usados, de pensamento expositivo, improvisos, falta de acabamento, etc. dominaram essa bienal. E esse descuido também causou uma péssima impressão naqueles que já não entendem o "linguajar" da arte contemporânea, afastando-os mais ainda de tentarem entendê-la.

No entanto, o saldo ainda me parece positivo. Quem não foi, perdeu. Quem foi e estagnou na questão do espaço inutilizado, também (e não na questão que ele explora). Assim como aqueles que pararam no nudismo do artista, ou no acabamento medíocre da exposição. No resto, valeu a pena. Torçamos apenas para uma melhor organização daqui a dois anos, para que esses pontos se solucionem.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

...minimalismo e design minimalista...

Pronto. Deixo aqui o PDF final da minha pesquisa sobre arte e design minimalista. Devo confessar que não está totalmente acessível, pois envolve alguns pontos de análise semiótica, artistas específicos, movimentos do design que são necessários certo envolvimento, etc. Mas, de qualquer maneira, achei o resultado razoavelmente satisfatório, e por isso o disponibilizo por aqui.


Estou bastante feliz inclusive pois o conteúdo sobre esse tema em terras brasilis é ínfima. Mesmo fora daqui, design minimalista é um assunto meio nebuloso, cheio de preconceitos e senso comum. Boa leitura (caso a paciência o permita...).

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

...imagem temporal...

Esse será por certo um post que foge do conteúdo habitual... Não vou dizer que não falarei de arte, pois o vejo como tal. Mas será algo mais pessoal, que me impeliu a escrever... Trata-se de algo que me tocou quando vi uma imagem e que me fez pensar e rever algumas coisas. Aqui está ela (espero não ser processado pelo autor...)


Não é uma pintura, nem uma gravura, nem um desenho à mão de genero algum, nem mesmo uma fotografia, mas uma imagem 3D (fora esse paradoxo nominal, é isso mesmo). O leitor pode se perguntar o motivo dessa imagem, e ñão qualquer outra coisa de arte contemporânea. Bom, como disse antes, isso me obrigou a escrever, não tive escolha... A imagem por si fala bastante já, mas o texto acompanhante acrescenta algo a ela:

"When i was little guy, i usually went on my vacations to one small city called Itobi (São Paulo – Brazil) with 8.000 habitants, in my aunt´s house.
After 9 years, i come back this one to enjoyed a weekend, and then i has a nice idea!
In the truth, i was thinking about my life, how fast the time passes, and how long the things changes, then i decided to make this work."

Impressionante, não? O que essa imagem mais me tocou é quanto a essa poesia absoluta de correspondência entre seu conteúdo e sua descrição. A sutileza é algo que a torna ainda maior. O autor, Pedro Conti (o leitor atencioso vai perceber que é ele também o dono das fotos da performance dos irmãos guimarães logo abaixo), da mesma maneira que eu fui impelido a escrever sobre essa imagem, foi também impelido a fazê-la. Como que uma necessidade. As imagens que possuimos da nossa infância, adolescência, ou qualquer das fases, são algo de muito forte e precioso, pois fazem parte da nossa inscrição na realidade, da nossa atuação no tempo e espaço, por menores que tenham sido. E que forma melhor de perpetuar esses traços que não nossa própria impressão a respeito deles? Uma fotografia pode dizer muita coisa. Pode alocar no tempo o ocorrido, pode precisar as pessoas presentes, ou qualquer outro fator visual naquele momento, mas ainda assim, seu fator subjetivo 'e reduzido se comparado com uma produção manual e pessoal, vinda da alma, e não dos sentidos, não do racional. E é justamente isso que me chamou a atenção nessa imagem e me incomodou: o que eu faço para perpetuar de maneira íntegra os sentimentos e emoções dos momentos marcantes da minha vida? e o leitor?

Sobre a imagem em si, há muitos os pontos que descrevem esse momento pessoal que tornam extremamente viva a vivência a que o autor nos quis passar: a bicicleta ao canto da casa, pequeníssimas aves ao fundo do céu, uma pequena pipa sobrevoando e tudo observando, e o mais forte de tudo, dois pés de chinelo estirados no chão, a formar um gol, característica fortíssima da capacidade criativa das crianças, e uma bola mucha, mas que isso tanto faz... Mucha ou cheia, o resultado é o mesmo... Diversão.

O modo como essa sensação foi exposta foi algo sublime. De tal forma que, como eu disse, eu TIVE que escrever... E aqui está.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

...entendendo o vazio...


Depois de postar
nada, falar sobre nada pode fazer sentido, não? Parece uma questão importante ressaltar onde se deseja chegar com a bienal que está acontecendo nesse momento e essa "proposta do vazio". Para começar, um pequeno texto que abre também a explicação do evento no próprio site da 28 bienal de arte de são paulo.


"Por sua própria definição, a Bienal deveria cumprir duas tarefas principais: colocar a arte moderna do Brasil não em simples confronto, mas em vivo contato com a arte do mundo, ao mesmo tempo em que, para São Paulo, se buscaria conquistar a posição de centro artístico mundial. "
[Lourival Gomes Machado, “Apresentação”. in: I Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo, 1951, p. 14].

A exposição ficou conhecida como "bienal do vazio", mas seu tema real é "em vivo contato", muito pertinente para a proposta que se apresenta. Um evento das proporções da bienal, com sua importância mundial (no patamar próximo às gigantes Bienal de Veneza e Documenta Kassel), tem a função de revelar o que se tem feito de mais importante no mundo da arte, expor as "tendências" mundiais, criar diálogos regionais de modos de pensar a arte, de fazê-la, de entendê-la, e o que se faz na 28 bienal é justamente não só pensar essa produção contemporânea, mas pensar o modelo de exposição "bienal" no paradigma que vem sendo estruturado.  Grandes feiras, proporções gigantescas, variedade espetacular, orçamentos monumentais, etc., a bienal desse ano vai quase que na contramão disso, chegando ao ponto de deixar um andar inteiro vazio (alvo de vandalismo por parte de determinados pseudo-artistas na busca de exposição na mídia) para tornar mais forte essa questão. 

"Em lugar de tentar produzir uma visão totalizante e representativa do fenômeno da arte da atualidade, o importante parece ser delinear especificidades, produzir cartografias estruturais, pondo em marcha um processo de trabalho investigativo e crítico, regular e sistemático, que acompanhe e dê conta, de modo produtivo, dos movimentos e das transformações percebidos num circuito artístico determinado." - Ivo Mesquita e Ana Paula Cohen, curadores.

Que mudanças são essas de que o curador fala? O modo de fazer a bienal vem sendo o mesmo desde seu princípio, ou seja, 1951, quando o panorama artístico tanto nacional quanto internacional eram talvez coerentes com esse modo de exibição, e mesmo o pavilhão desenhado a seguir por Oscar Niemeyer também o fosse. De modo bastante grosseiro, aqui o movimento concreto era bastante forte, e a pintura dominava nosso país. Mesmo fora, ainda era ela quem reinava, embora já se encaminhasse para o que na década de 70 seria chamado de arte conceitual. No entanto, ao comparar com o que se produz hoje, vemos que a diferença é gritante. Se expandiram as fronteiras do que se entende por arte, onde ela pode chegar, mudou o modo como se ensina arte inclusive, assim como as preferências dos artistas, criaram-se novas relações, novos pensamentos foram introduzidos, visões políticas ou ideológicas, etc... A variedade hoje é tamanha que mapear de forma completa o panorama artístico mundial é uma tarefa no mínimo ingrata, mais precisamente, impossível. Sem falar que o papel do curador mudou, onde é ele que traça, pensa e interpreta a realidade e a arte ao montar "sua" exposição, com algo o que falar, uma história a contar, com coisas que ele vê como relevantes. Há ainda pouco tempo, eram as representações internacionais que enviavam seus artistas, mas a partir da última, a figura do curador "tomou o poder" para si, e esse já é um debate bastante inflamado que está acontecendo... 

Esse post foi mais para expor certas idéias do que está acontecendo com essa bienal, e recomendo, para que se entenda melhor ainda esse panorama de que falamos, que se vejam os vídeos no site da 28 bienal com os debates ocorridos antes do início da bienal (são os quadradinhos azuis nos meses de jun/out). 

Aqui, Raul Mourão coloca a entrevista do curador Ivo Mesquita à revista Bravo!.

Aqui, um link para várias entrevistas feitas em 2007 sobre essa proposta dos curadores.

E para finalizar, um link para uma entrevista ao estadão, com ambos curadores.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

...micro contos...

A mostra do Sesc acabou, mas deixou muita gente satisfeita com o que mostrou.
Uma das obras, a que coloquei o link num dos primeiros posts sobre a mostra, foi a do conto no celular, chamada Literatura Celular. Se inscrevia o celular no site do Sesc e se recebia diariamente 3 micro contos de diversos autores. O intuito seria introduzir pequenos momentos literários inusitados na vida das pessoas. Chega a ser interessante microcontos no celular de um país onde a média de livros lidos por ano é menor que 1. Colocarei a seguir alguns contos. Não todos, pois meu celular estava ajustado para apagar mensagens mais velhas que 5 dias. E infelizmente, percebi isso tarde...

MOSTRA SESC DE ARTES 08:

_Amor deles agua de barrela: ele gostava do Rimbaud; ela do Rambo - Evandro Affonso Ferreira

_VENTRILOCO - Quem ta falando, eu ou voce? - Fernanda Siqueira

_SEREIA - Chegou na cela. Por que olha para esse copo d agua? O velho disse: 15 anos e nao sei. Chega agora e quer saber? - Ferrez

_PEDRA NO PESCOCO - kd vc agora? virei oceano sem adeus nem volta
tudo foi amor :,(
:,(
não era onda - Flavio Viegas Amoreira

_50 ANOS - De hoje em diante so faco o que quero. E cedo pra isso, disse minha mae, que nunca se deu ao luxo. - Ivana Arruda Leite

_PARTO - No lixao, a mendiga forca o bebe pra fora:Se tu entala, te faco voltar pra barriga, fio-da-puta - Joao Silverio Trevisan

_Mae, Alice me bateu. Nao liga, essa boneca e muto ignorante. - Livia Garcia-Roza

_O enfermeiro estava no elevador com o cadaver na maca.Acabou a luz. Ele acendeu um cigarro e ofereceu ao morto. - Marcelo R. Paiva

_O FOSSIL DE SILVIO SANTOS - Os dentes nao estavam mais la. Mas ele continuava sorrindo. - Mario Bortolotto

_A NOITE - sentou-se (quando parecia flutuar) e levantou-se (quando parecia cair): sempre a mesma insonia - Mauricio de Almeida

_Palavra ou magica?So uma opcao. Escolheu. Errado:nao era palavra. Mas o escritor sempre opta pela palavra. - Moacyr Scliar

_Tocou o sax antes de puxar a corda no pescoco. No espelho, o bilhete: aqui jazz. - Raimundo Carrero

_Essa tatuagem vai dorer? So no divorcio. - Reinaldo Martins

_QUEDA LIVRE - Maria Alice esqueceu a janela aberta. E sua atinha Wendy voou para a Terra do Nunca. - Sergio Roveri


ps.: adicionado em 06/05/09 - Por causa de um celular roubado perdi todos os microcontos que estavam na memória... Ainda bem que guardei alguns aqui...

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

...respiração mais...

A abrangência dessa mostra do Sesc é muito boa. Estão na mostra instalações, peças, músicas, concertos, intervenções, etc., e, a que comentarei agora, performances.

Performances são como que atos artísticos, numa mistura entre teatro e arte conceitual, o artista executa uma série de ações com o intuito de transmitir certa idéia, ou falar de determinado assunto. Na história da arte, temos muitos artistas performáticos famosos, como Marina Abramovic, ou Joseph Beuys, entre outros. No Brasil, encontramos os Irmãos Guimarães, que participaram dessa mostra sesc de 2008. Já participaram da Bienal de São Paulo com uma instalação, e em exposições internacionais. Na mostra, apresentaram a performance Respiração +.
A obra que apresentaram na mostra é constituida de dois aquários, um ao lado do outro, cheios de água, numa altura de 1,50 do chão. No momento em que inicia a performance, dois artistas vestidos de terno e gravata entram nos dois aquários e ao sinal de uma campainha acionada por um terceiro artista, ambos submergem. Novamente o sinal é acionado, e um deles se ergue e começa a declamar um longo texto a respeito da respiração, como no trecho a seguir:

"A respiração é um ato obrigatório mas involuntário e inconsciente, e não se toma conhecimento. A respiração tem como função: uma, levar oxigênio ao sangue a fim de alimentar todas as células do organismo. A segunda é expelir o gás carbônico. O gás carbônico não pode permanecer no organismo. Caso isso aconteça, haverá intoxicação (...)".

No entanto, o texto não é recitado inteiro, pois cada vez que o terceiro artista toca a campainha, o ator que está falando submerge, e o que estava na água emerge para falar seu texto. O primeiro intervalo entre as campainhas é de 5 segundos. O segundo é de 7 segundos. O terceiro de 10 segundos, e assim por diante. A velocidade com que falam não permite que respirem profundamente, nem mesmo o tempo que têm para tomar fôlego antes de novamente submergir, o que torna assistir a essa performance algo bastante agoniante. Esse ritual dura aproximadamente 20 minutos, o que torna os intervalos finais extremamente longos, a ponto de os artistas não resistirem e terem que subir para respirar antes do toque do sinal. Mas ainda assim, eles sobem e declamam seu texto, retornando à água assim que o sinal volta a tocar.

Impressiona bastante a performance no seu todo, pois ao final é possível observar a exaustão dos dois artistas. No entanto, o modo como os Irmãos Guimarães trabalham é de forma bastante teatral, não sendo possível saber se esse cansaço faz parte ou não do atuar.

É interessante as diversas interpretações que se podem ter dessa obra. Uma delas leva em conta a disposição do cenário. Os aquários, um ao lado do outro, são como que os pulmões, e ao centro, onde fica o artista com a campainha, o cérebro ou sistema nervoso central, controlador do corpo, tanto dos movimentos voluntários quanto involuntários. No princípio, tudo é controlável, tudo obedece, mas quando se caminha para situações extremas, se perde o controle, não se resiste até o fim da campainha, não importanto o quanto que a mente mande, o organismo acaba mais forte. Haverá quem diga que isso é para os fracos, e que nas artes orientais há um autocontrole em que o desejo da mente supera todo o corpo. A isso aponto então as roupas que os artistas usavam: terno e gravata, vestimenta característica do povo ocidental, onde esse auto-domínio não impera, ou pelo menos não é tão forte.

E esse texto evocado pelos artistas também remetem a esse universo ocidental, onde o conhecimento científico permeia as ações do homem desde o renascimento, onde começou a ser mais fortemente desenvolvido o método científico. É no entanto de se questionar a importância desse tipo de saber num momento desesperador como esse: que importa as características do processo respiratório num momento em que me afogo? Que ajuda me dá conhecer isso se o que eo preciso é respirar? Chega mesmo a atrapalhar, pois falar impede uma profunda tomada de fôlego, coisa que o instinto cuidaria com muita propriedade por si só.

Aqui, link para o página da mostra sobre os artistas. As fotos desse post são do Pedro Conti.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

...intervenção sonora...

Aqui vai uma pequena mostra do poder dessa Mostra Sesc. 

É o trabalho do artista Luke Jerram, inglês. Chama-se Play me, I'm yours (Toque-me, Sou teu). Trata-se da inserção de sete pianos pela cidade, em lugares inusitados, onde o pedestre está simplesmente convidado a sentar e tocar. Qualquer um. 
É um trabalho belíssimo! A possibilidade de ouvir a monstruosos desconhecidos, que temos certeza de serem como nós, trabalhadores, que ao passarem, distribuem a quem quiser ouvir um pouco de seu oculto talento. Os ouvintes não vão ao encontro da música, mas são capturados por ela enquanto caminham, são fisgados pela orelha, puxados, e ficam observando absortos a um desconhecido que os maravilha com sua habilidade. E não são pessoas selecionadas que assistem, mas trabalhadores, executivos, moradores de rua, todo tipo de homem, de toda classe, profissão e crença. 
Interações sociais ocasionadas por um simples objeto inserido num contexto que não o seu. A quebra da rotina, tema dessa mostra do sesc, é o que causa essas novas interaçoes entre as pessoas. Qualquer coisa que fuja do normal sempre resultam naquela olhada para a pessoa do lado, com cara de espanto. Tanto uma vaca de cerâmica na avenida Paulista, quanto uma iluminação inusitada, também um colete salva vidas numa estátua em pleno centro de São Paulo, e um piano no largo do pinheiros. É simplesmente mágico.
Antes de encerrar com o link, colocarei aqui alguns posts do site do projeto Play me, I'm yours.

"Saio do metro depois de mais um dia, ou melhor, uma noite na sala de aula com meus alunos. E ainda dentro da estação saindo pelo corredor ouço os primeiros acordes, me aproximo, o sujeito engravatado que sentava ao piano é Antonio, tocou várias, a qual arrisquei cantarolar, um outro que se aproxima de mim é Alexandre, conversamos um pouco, Antonio vai embora ficamos eu Alexandre e uma moradora de rua, Alexandre arrisca mais uns acordes, fechamos o piano temerozos do que poderá acontecer com ele, e seguimos conversando para nossas casas.
No outro dia eis que estavamos todos lá, Antonio, Alexandre, Eu, a moradora de rua, e o Piano...
Por favor deixem ele ficar...." - Augusto

"Saída do metrô Santa Cecília ... Um piano ... Uma criança cega, junto com a mãe, brinca nas teclas, e a luz da música brilha em seus olhinhos ..." - Patrícia

"Quando fomos instalar o piano na Santa Cecília, aconteceu o inusitado: Eis que do nada , aparece um sujeito barbudo entre vários mendigos. "Sai da frente que agora eu vou tocar..." Isso depois de várias performances dos mesmos. Após abrirem o espaço. A figura inusitada, recém chegada das fábulas do "Senhor dos anéis" senta no banco e inicia: " Salve o Corintians....." tocou direitinho todo o hino, e arriscou uns acordes no final....." - Marcelo

E aqui, o link.


...mostra sesc de artes 08...

Todos os blogs que eu frequento estão fracos de assunto nas últimas duas semanas... Diferente deste, que com o início da Mostra Sesc de Artes 08 teria assunto para quase que um ano inteiro de postagens quinzenais. A mostra começou dia 08 de outubro e vai até dia 18 de outubro, com diversos trabalhos nas mais diversas mídias e extensões por todas as unidades do sesc na cidade. Visitarei algumas obras, e depois posto aqui algo sobre elas. Por enquanto, deixo o texto de apresentação do encarte da mostra:
"pausas, deslocamentos, contemplações. Desejos que se traduzem nas ações artísticas que ocuparão as unidades do SESC SP no período de 08 a 18 de outubro. Partindo da inquietação presente no cotidiano da cidade, ou da rotina quase sempre eufórica de seus habitantes, a atual edição da MOSTRA SESC DE ARTES busca criar pausas poéticas e instantes de ruptura para o público, transbordando suas intervenções artísticas para a aescala urbana ao redor.

A produção artística contemporânea - nas linguagens de artes visuais, artemídia, dança e teatro - permeia a amostra buscando provocar os sentidos e aguçar percepções. São cerca de 80 projetos, de artistas nacionais e internacionais, apresentados em 15 unidades do sesc na capital e grande São Paulo.

Não se espante se, ao caminhar por uma unidade do sesc ou por seus arredores, você se deparar com bailarinos em paredes, prosas em elevadores ou, mais adiante, orquestras em semáforos: assim multiplicados os cenários de fruição, multiplicam-se os olhares e as esculturas - função primordial da arte".

Para não passar esse post em branco, deixo aqui um link para uma das obras. Eu, pelo menos, já "faço parte" dela... Ao seu fim, postarei aqui tudo que recebi dela.
Aqui, outro link para o site do próprio SESC.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

...minimas notas...

Se há algo fascinante no mundo das artes, é justamente a capacidade de interação entre suas diversas "modalidades". É interessantíssimo como o expressionismo de Munch influenciou a arquitetura de Taut, ou como o concretismo remecheu-se também pelo campo da poesia. Há diversas "trocas" de cultura que aconteceram e acontecem por aí.

E é mais fascinante ainda numa pesquisa por determinado estilo, se o encontre nas demais artes, como aconteceu comigo e o minimalismo. Por pesquisar apenas nas artes plásticas, acabei por encontrá-lo na literatura, no design, na arquitetura, na poesia, e, mais impressionante ainda, na música.

No minimalismo, uma das suas características era a padronização das formas, repetição serial de objetos industriais, clareza comunicacional, etc. Na música encontramos elementos semelhantes, como a execução infindável de padrões de acordes, sem grandes malabarismos escalísticos, mas apenas o básico, podendo variar o andamento, como Carl Andre variava o número de elementos repetidos. Podem variar os instrumentos também, assim como se pode variar o material de uma estrutura primária, e assim vai.

Um dos expoentes da música minimalista é Philip Glass. Há diversas peças dele bastante interessantes, e algumas até famosas. Mas gostaria de chamar a atenção para duas em especial. uma delas chama-se "Islands", do album "Glassworks". Abaixo, a música. Aperte o play e veja como as coisas acontecem.



Aqui, encontramos as mesmas características listadas acima. Há um padrão crescente de notas, que se repetem, variando o acorde sobre os quais se realizam. Sobre esses padrões encontramos um violino cantando longas e suaves notas, condizentes com os acordes sobre os quais estão inseridos. Em determinado momento, soma-se um violino, depois outro instrumento, mas sem nunca perder o principio do todo, que é a repetição, pouca variação, monotonia.



Aqui vai outro exemplo do mesmo artista. Chama-se "Einstein on the Beach/ act.I", da ópera "Einstein on the Beach". É uma música bastante longa, e interessante. Aqui, Philip Glass lanca mão de uma repetição quase que eletrônica, com um andamento às vezes muito acelerado, e instumentos variados. Começa pequeno, mas logo se acrescem ao conjunto vozes humanas, uma flauta, cantando sobre a base repetitiva, que ecoa da mesma maneira que na música anterior, sempre a mesma durante a música toda.

Já nessa, o que chama a atenção é justamente as vozes que cantam. Nelas, as palavras são as próprias notas, como podemos ver no trecho 3:45, onde a voz pronuncia literalmente "lá, si, lá, si, lá, si...", ou seja, a voz é a própria nota, assim como a palavra é a nota. Não há sentido explícito por parte do artista: as notas são o que elas são, uma depois da outra. Certamente, sobre essa música, o artista Frank Stella diria "what your hear is what you hear" (o que você ouve é o que você ouve). No entanto, há algo a mais na música que nos remete a outro universo. Conforme ouvimos as vozes cantando as notas, necessariamente as ligamos a palavras. Mentalizamos verbos, substantivos, adjetivos, ou qualquer outra classe de palavra se repetindo, repetindo e dizendo coisas, como quando ouvimos a máquina de lavar na sua monotonia também dizendo algo. No trecho que ouço agora, ouço a frase cheia de sentido "Não sei sentar, não sei sentar, não sei sentar...". É claro que é um absurdo, pois não se diz nada do tipo! Mas é o mesmo absurdo que se tentar encontrar um sentido literal numa obra abstrata... São ilusões que nossa mente nos prega. Nada mais que isso.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

...materialidade povera...

A Arte Povera foi um dos movimentos artísticos mais fortes e subversivos no pós-II guerra, em especial na Itália, país onde surgiu. De caráter revolucionário, lança mão de materiais encontrados, em estado de decomposição ou passivel de tal, naturais, vivos, encontrados no lixo, etc. Ou seja, tudo que até então não era convencional como material artístico. O ideal de retirar o objeto arte do circuito mercadológico que havia dominado, e pensar a arte fora de um sistema dominador, levaram os artistas ao uso desse tipo de material. A imagem deixa de fazer parte do trabalho, que torna-se sempre tridimensional e temporal. O modo cru como se expõem os trabalhos, bem como seu modo de feitura tornam-no extremamente literal, embora não frio, já que seus objetos todos fazem parte de certa forma a um cotidiano pessoal, seja ao se usar animais, objetos simples, ou construções apodrecidas.


O contexto era de uma Itália destruída pela guerra, onde as prioridades de recontrução era todas menos o meio artístico. Assim, os artistas optam por essa abordagem de materiais, bem como no questionamento do que seria arte, do mercado de arte, da apropriação destas por parte do sistema global, etc., ao ponto de se negarem como artistas, de negarem o objeto artístico como tal.

Um dos artístas chaves desse movimento foi Jannis Kounellis. Uma de suas mais famosas instalações foi o alocamento de vários cavalos vivos numa sala. Seu trabalhos caminham por uma gama de materiais bastante característicos do movimento Povera, o tempo é um dos materiais mais impressionantes do qual faz uso.

O trabalho ao lado, por exemplo, pode ser entendido, como uma metáfora desse material, o tempo. Trata-se de uma instalação feita de dois armários dependurados por cordas, e uma janela anexada à parede ao fundo. Um armário é um lugar onde se guardam objetos, roupas, quinquilharia, ou qualquer coisa que não interessa no momento, mas talvez no futuro. Pode ser tanto uma mobília íntima quanto pública. O içamento remete a diversas ações (enforcamento, distanciamento, pêndulo, etc.), mas no caso, parece mais relacionar-se ao simples afastamento do contexto usual do objeto, afinal, um armário amarrado e dependurado acaba é inútil, tornando-se como que um caixão para o que estiver dentro, perpetuando seu conteúdo, deslocado da materialidade terrêna, num campo quase etéreo, elevado. A janela ao fundo torna-se um sinal de temporalidade, de ver as coisas passarem, uma conexão do interior com o exterior, embora não interativa, porque fechada. A aparência de todos objetos são de rejeitos, discartados, encontrados e apropriados pelo artista para uma nova relação de sentidos, num novo contexto de significação.

Para mais sobre o artista, um link da Tate Modern, e um livro sobre o artista no Google Books.


segunda-feira, 25 de agosto de 2008

...agrupamento minimo...

Continuando a coleção de posts sobre artistas minimalistas e pós-minimalistas, hoje encontrei algo bastante interessante. Essa obra, Stack, 1975, é do artista Tony Cragg, normalmente alocado no grupo dos pós-minimalistas. E aqui podemos encontrar um exemplo da influência de Rauschenberg nesse movimento.

Já sabemos que uma das características do movimento é a tentativa de universalização da forma através de formas puras, básicas, como o é o cubo, a esfera, o cilindro (formas já apontadas por cezanne como constituintes de todas as outras do mundo). E outro elemento característico do minimalismo é a apropriação de materiais industriais na construção de suas obras. Nesse trabalho encontramos ambas as características de certa forma, mas ao mesmo tempo encontramos outra, mais pertencente ao pós-minimalismo, que é o conceito por trás da obra. Podemos observar que a forma é de um cubo, que sua construção está de tal forma juntada que a gestalt geral do conjunto é algo que chama a tenção pela paradoxal uniformidade de texturas, de formas internas e de paleta cromática. Essa diversidade de materiais provém justamente dos objetos coletados pelo artista para a montagem da obra: são todos objetos ready-mades da construção. São blocos, cimento, madeira, etc., ou seja, materiais que constituem o mundo, que são a presença do ordenamento do homem na terra, do ordenamento do espaço, tão estudado pelos minimalistas. É essa característca de apropriação e de conversa com a interferência do homem no meio que aproximam os trabalhos de tony Cragg, de Iran do Espírito Santo e de Damian Ortega. Ambos trabalham com esse mesmo tema, seja pelos materiais, seja pela ferramenta, seja pela ação.
Outra característica compositiva da obra é o modo como Cragg faz para organizar seus materiais: os coloca todos horizontais, mantendo o equilíbrio com a altura da escultura (2m).
Para mais trabalhos do artista, visite o site da Tate Modern.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

...formas mínimas...

Voltando à arte contemporânea, em especial ao minimalismo, mais especificamente no Brasil, tratemos do famoso Iran do Espírito Santo. O artista representou nosso país ano passado na Bienal de Veneza, e continua expondo mundo afora. Seu trabalho se calca bastante na percepção dos espaços, mais especificamente, em objetos e situações ordinárias, mas muitas vezes com metáforas bastante sutis e bem pensadas.

Copo d'Agua, 2006, é uma de suas obras mais famosas. O que se observa é a distorção visual que um objeto simples causa, um objeto cotidiano, ordinário, imperceptível senão num contexto como de uma exposição. E justamente é esse contexto que nos permite perceber sua beleza. A transparência imaculada, a simetria absoluta, a ausência de qualquer ruído visual, a sombra projetada com um foco brilhante próximo à base, o molde da realidade de acordo com suas
próprias regras, a limpeza de forma, a serenidade da inexistência de movimento, e finalmente a simplicidade absoluta contida nele são alguns dos elementos visuais aos quais estamos expostos diariamente, e nem percebemos. Não há como passar desapercebido de obra tão paradoxalmente grande.
Lembra até mesmo o famoso trecho da música do Gilberto Gil, cantada por Chico Buarque, Copo Vazio, que diz:
"É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar."
Tudo é ocupado por algo, preenchido, seja por matéria, seja por sentidos, significados, relações, ambos os casos modificando o atuar do homem no mundo. Uma forte ideologia trabalha sobre o homem tanto quanto uma pancada num galho de árvore. O mundo físico e o mundo subjetivo são faces de uma mesma moeda, sempre juntos, funcionando ao "acaso", influenciando-se mutuamente e propondo infinitas possibilidades de ação, ou ausência de.

Outro belíssimo trabalho do artista é Sem Título, de 2004. Uma "rodela" de uma parede, um deslocamento material de uma situação tão sólida quanto uma casa, que ao mesmo tempo mostra-se frágil na forma de círculo, impondo certa tensão estática, já que qualquer mínimo toque o faria movimentar-se impreterivelmente. Expõe a estrutura básica construtiva do meio (o tijolo), e contrapões sua forma paralelepípeda ao recorde cilíndrico onde se encontra. Se fica a imaginar o local de onde foi tirado, o espaço aberto criado, e o modo como se o fez. Novamente o objeto é cotidiano, presente na vida de absolutamente todos, delocado de seu meio natural para que se ganhe vida por si só, por suas características visuais e compositivas. Mesmo o aspecto rude do tijolo consegue contrastar com a elementariedade de sua estrutura primária, bem como com a perfeição do recorte limiar do círculo, e de seu entorno imaculado, a sala da galeria.

Coloco aqui três links: um para seu espaço no site da Galeria Fortes Vilaça, outro para um texto em inglês sobre o artista, e um último para mais fotos de outra exposição do artista.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

...abstracionismo...

Hoje deu uma vontade de voltar um pouco no tempo... Resolvi deixar pra lá um pouco a arte contemporânea e falar de um ícone do movimento moderno que viria a mudar o destino todo das artes plásticas. Não é bem uma pessoa, nem um movimento, mas uma tendência, e falo do abstracionismo. Arte não-figurativa é um enigma pra muita gente, e muitas vezes é preciso certa orientação para entendê-la.


O pai da pintura abstrata é Wassily Kansdisnky. Em 1910, fez sua primeira aquarela abstrata, representada ao lado. No entanto, seu desejo de a fazer veio de certo tempo antes, quando começou a vislumbrar que uma obra não necessariamente teria que ser figurativa (representar certa figura exterior) para ser uma obra. Dizia que toda pintura é um equilíbrio de abstração e realismo, no sentido de ter que abstrair a essência do objeto para aproximar-se ao seu conteúdo real. A arte não-figurativa para ele nasce do maior uso desse elemento "abstração" do que do realismo, esse por sua vez apresentando-se de forma "concentrada" na tela, sem deixar de existir. Mais à frente, Doesburg diria que todo quadro é abstrato, pois para se desenhar ou pintar uma vaca, abstrai-se sua essência, afinal, o quadro não é a vaca, mas representação desta. E diria que a obra não-figurativa por excelência é a arte geométrica (comentada em post anterior sobre Mondrian). Konrad Fidler escreveu certa vez que "(...)qualquer obra e arte só se justifica quando é necessária para representar qualquer coisa que não pode ser representada de nenhuma outra maneira". A pintura abstrata informal é justamente isso: expressar um movimento interior (de um sentimento qualquer) que não há outro modo de o definir.

Foram muitas as vertentes abstratas, mas uma das que mais admiram os espectadores (ou causam indignação em alguns casos) é a busca pelo traço infantil. O trabalho ao lado, do artista israelense Lea Nikel, Untitled, é um dos exemplos. O próprio Kandisnky e outro artista, Paul Klee, empenharam-se numa pesquisa profunda sobre o desenho infantil. Diziam que o ato de desenhar mais natural, onde há a verdadeira expressão interior, sem a ânsia por impressionar os outros, apenas de exteriorizar certo impulso interior de interpretar algo, é o desenho infantil e dos loucos. A criança desenha uma cadeira com pernas tortas, ou desproporcional, mas para ela, aquilo é uma cadeira. Se contenta com o que fez porque é daquela maneira que ela a entende. Diversos artistas tentaram retornar à essa fase, como na pintura ao lado, ou na aquarela acima. A cor é tratada intuitivamente, os traços são espontâneos, os erros não existem, a composição é empírica, é tudo feito no momento. E a arte abstrata informal por vezes tenta justamente apropriar-se desse modo de fazer, desse modo de pensar, para expressar-se de forma verdadeira, não convencional, instantânea e à livre interpretação.

terça-feira, 22 de julho de 2008

...realidade cinematográfica...

Esse será meu primeiro post sobre cinema. E talvez seja o último, porque não costumo ver muitos filmes (em torno de 1.5/mês... Uma média deplorável!).

"Sonhos Com Shanghai ", do diretor Wang Xiaoshuai, é um belo filme de fato. Exibido na mostra de cinema contemporâneo chinês do Centro Cultural São Paulo, é daqueles que impressiona e arrepia até o último fio de cabelo. Aqueles que esperam golpes marciais, ou surrealidades, esqueça. É um filme da vida real.
E é simplesmente isso que ele é. Construído numa história forte, dramática, agoniante, leva o espectador a pensar na vida cotidiana, nos pequenos atos que levam a outros pequenos atos, que ocasionam outros, os quais por sua vez, mudam uma vida. Impressionante, simplesmente. Ao término do filme, não se sabe o que dizer. O coração pesa, almeja por descarregar-se, mas não há o que falar. E, talvez sendo esse o maior mérito do filme, não há quem culpar. Essa é que é a verdade. Na vida não há culpados. Não há carrascos. O que há são justamente pequenos atos que levam a outros pequenos atos, que por sua vez desbocam em acontecimentos extraordinários (para bem ou para mal). E todos experimentam isso todo dia, a cada momento. Justamente essa inculpabilidade é que faz do pós-filme um verdadeiro sofrimento de indecisão e uma obra de arte de altíssima qualidade.
Aqui, link para a sinópse do filme.

domingo, 13 de julho de 2008

...a voz como instrumento...

Este post foi um amigo meu, Gabriel Garbulho, que escreveu a meu pedido. Deleitem-se!

“Que coisa mais estranha é ver toda uma espécie, bilhões de pessoas, ouvindo padrões tonais sem sentido, brincando com eles, absortas, arrebatadas durante boa parte do seu tempo pelo que chamam de música”

(Oliver Sacks)


"Quando o Eduardo me pediu um artigo sobre “A voz como instrumento”, foi inevitável para haver uma maior familiaridade com o tema, que primeiro expusesse a música de forma a poder ser racionalizada como a arte em geral, ficando mais próximo do mundo dos leitores do Digerindo Arte. Agora sem mais expicações.

Apesar do caráter científico da pesquisa de Oliver Sacks (ele é neurologista), esta frase de início vem embebida de uma visão poética e esclarecedora. A música é a forma mais livre e direta de arte, pois só requer ao espectador a sua faculdade física básica para apreciação: o ouvido. Enquanto as artes plásticas (em especial após o modernismo) trabalham essencialmente com o intelecto e as referências, o som, por si só, diz a que veio.

Não ignoro que as referências culturais e a própria história pessoal acabam por pender para um ou outro estilo e diferentes apreciações, mas fato é que ouvimos o que instiga diretamente a nossa emoção. E é a intangibilidade emocional, o invisível preenchedor a pauta do dia.

A música instrumental é a pura essência do que foi comentado acima. Ela não está embutida de um texto, uma mensagem que utilize o entendimento literário, sendo os padrões tonais o alfabeto, e a harmonia responsável pelas orações. O grande trunfo de um bom instrumentista é criar sinestesias dentro dessa gramática, fazer o som ter tato, trazer imagens por mais que sejam abstratas, refletir sensações involuntárias. O sabor de um grande instrumentista é transparecer sua energia sem aparecer, o seu toque e o instrumento reverberam essa aura no teatro (um ótimo lugar para entender do que eu falo) ou mesmo em um estádio ou na sala da sua casa.

A voz por princípio é um instrumento, embora no meio musical isto nem sempre tenha seu devido reconhecimento. “Cantar é mover o dom do fundo de uma paixão, seduzir”, definiu Djavan em sua música, que é exatamente o dever de todo e qualquer instrumentista.

A voz tem todo o poder do corpo. Cantar é mover o dom por todo o aparelho respiratório, é modular com a língua e os dentes, é dar volume, controlar o peso. Também se espalha pelos membros que gesticulam, pelo rosto que se contrai, e tudo isso modifica e dá propriedade ao som, mesmo que não vejamos a imagem de quem canta. O cantor tem o instrumento mais completo e o mais emocional.

Estava com o Eduardo no carro e ambos ficamos absortos (parafraseando Oliver Sacks) ao ouvir o primeiro tema do LP “Minas”, cantado por Milton Nascimento. Não havia letra, não havia mensagem, havia uma aura se espalhando por um falsete que evocava imagens, no meu caso nostálgicas, mas de um passado divino, como uma sacralização das coisas simples. Um choro puro, vindo de um interior longínquo, um batismo de toada.

A voz enquanto instrumento evoca o abstracionismo de um action painting: marca consigo o gesto, dentro da delimitação da tela (assim como o campo harmônico o faz com os improvisos). Um bom exemplo e também próximo da realidade da música popular é The Great Gig in the Sky, faixa da obra-prima "The Dark Side of the Moon" do Pink Floyd. O solo vocal é cortante, entra em um momento ápice, e imprime toda a potência da canção negra. Uma mulher transloucada quer ocupar todos os espaços como água quando entra no copo, perde a estribeira e transborda em poder. Seu solo é mais aterrador do que qualquer camada de guitarra gravada pelo também monumental David Gilmour, traz um corpo em ebulição que é mais capaz do que a distorção no instrumento. É impossível manter-se alheio a um grito de desespero.

Existem exemplos mais racionais como Ella Fitzgerald, embora a graça do seu improviso esteja no quebrar de suas métricas e no charme de seu timbre. O corpo ali é também elemento ativo e portanto há essência.

Termino este artigo lembrando Gal Costa quando dizia que Cássia Eller era perfeita porque soava como um instrumento: sendo um solo vocal ou uma melodia acompanhada de poesia, o grande vocalista é aquele que o faz por todos os poros. Não é uma questão de interpretação mas de incorporação, que vai ser o resultado esperado de quando este som chegar ao ouvinte. E o quê nas artes plásticas teria paralelo à esta incorporação? Agora quem traz as respostas são vocês".

Gabriel Santos Garbulho – 13/07/2008

terça-feira, 8 de julho de 2008

...plano linear...

Aprendemos no colegial que um ponto é uma cordenada no espaço, e que uma linha é um conjunto de pontos. Toda essa teoria torna-se prática no trabalho de Edith Derdyk, artista que trabalha com linhas de costura como material de suas obras.

Uma breve passagem pela biografia da artista demonstra uma forte inclinação ao desenho. Os trabalhos aqui apresentados são como que a materialização literal de um desenho, onde o traço torna-se linha, tensionada e reta, no entanto, expressiva e flexível. Vemos na obra ao lado, Corte, 2002, uma chapa lisa e quadrada sendo erguida e suspensa por uma quantidade infindável de metros de linha, quantidade que sempre ultrapassa os milhares de metros e dias de trabalho. A tensão explícita nos barbantes negros, bem como a superfície branca a que se prendem, meio que criam um diálogo com um desenho a nakin, só que ao invéz de a folha sustentar o traço, a cor, é justamente o oposto, sendo a linha que sustenta o suporte. A linha, o traço, o rastro, é que dão sentido à existência do plano imaculado. E como impressiona o jogo de tensões a que a obra se submete e submete o observador, que teme e evita aproximar-se, com medo de algum acidente. A obra e seus sígnos aparentes acabam ditando um modo de reação a que o espectador impreterivelmente acaba por se submeter.
Em outro trabalho, Rasuras III, de 1998, encontra-se novamente a confirmação da formula geométrica colegial. Uma linha é formada por infinitos pontos, e um plano é formado por infinitas linhas. A artista objetiva o ato, rasura o espaço, criando um plano estático e mutante, que se revela diferente e estimulante a cada posição que o observador focaliza a obra. E no miolo, no núcleo do turbilhão de traços, como que se observa uma curva das linhas, enroladas, a esconder algo, propósito próprio do ato "rasurar", que tenta inutilmente esconder algo que não se quer mostrar. São vetores da tensão espacial, compostos um a um, articulados e amarrados individualmente, com a mesma importância da composição final: cada um deles mostram-se fundamentais à essência da obra.
Aqui, link para mais algumas imagens impressionantes.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

...acontecimentos artísticos...

Serão dois os artistas de hoje: Eduardo Srur e Brígida Baltar.


Brígida Baltar é uma artista que apresenta ao observador momentos comuns. São ocasiões cotidianas, como ações inusitadas. O trabalho ao lado chama-se A Coleta da Neblina, de 2000. Sua ação é coletar pontos de neblina, e, não só guardá-los, mas colecioná-los, uma vez que realiza essa performance desde a década de 90. A poesia está na simplicidade do ato. Ao se coletar um punhado de ar, e armazená-lo numa coleção, perpetualiza-se o momento como numa fotografia. A obra, no entanto, não encontra-se nos frascos ou nas fotos, essas são apenas índices desta. A obra é a ação da artista. A simples ação de fugir da estrada cotidiana e embrenhar-se por uma vereda paralela, mas muito mais interessante. O momento é quase que catártico, pois trata-se de um acontecimento extraordináriamente simples. Magnanimamente pequeno. E, o mais importante, ao alcance de todos.

O segundo artista é Eduardo Srur. O trabalho ao lado chama-se Sobrevivência, 2007, e muita gente deve se lembrar dele. Trata-se de uma intervenção urbana , como a maioria dos trabalhos do artista,feita no centro da cidade de São Paulo que de forma inusitada apresenta ao transeunte uma visão surreal e cômica, inesperada no contexto urbano, ou em qualquer outro. Estátuas fundidas, com figuras altivas, gloriosas, com coletes salva vidas no pescoço.


A mensagem é bastante clara, talvez por ser divertida. Deixa de tal forma o observador inquieto e atordoado que o força a pensar no evento.

Agora, porque a escolha desses dois artistas? Qual a semelhança entre eles? Como explicita o título do post, são ambos acontecimentos artísticos. Enquanto a proposta de Brígida é mais íntima, mais de ação, de transformação, a obra de Eduardo é coletiva, surpreendente, chocante, e reflexiva. Mas ambos são acontecimentos, que propõem mudança, e que só podem ser registrados por fotos ou filmagens, mas nenhum dos dois modos pode superar o modo mais antigo e fácil de armazenar fatos, que é a lembrança. A impressão que só acontece no momento em que se observa e vive o fato, que nenhuma mídia pode passar, é a idéia central de um acontecimento desses. Não sei dizer se chegam a ser happenings, mas o fato é que, por se tratarem de ações localizadas no tempo e em espaço determinado, são únicas, e pessoais.

Aqui o link para mais obras e ótimos textos de Brígida.
Aqui, link para mais trabalhos de Eduardo Srur.



sexta-feira, 20 de junho de 2008

...mea culpa...

Mais um erro... sim, acho que a coisa está ficando feia... A leitura feita da obra de Bruce Nauman não é a melhor a se fazer. Compre um livro a duas semanas e folheando-o, vi uma imagem de um homem cuspindo água pela boca, em posição de cupido. Na legenda dizia: Bruce Nauman. Aí a coisa começou a realmente fazer sentido. E outro ponto que o autor coloca também (fico devendo o nome dele) é a relação do trabalho com um das mais icônicas e exploradas obras de arte modernista: a fonte de Duchamp.

Depois disso, tudo parece mais claro e óbvio, não? O que eu quero agora chamar a atenção é essa confusão toda: o que possibilita alguém fazer uma boa análise de um trabalho de arte? No princípio da arte modernista, bastava conhecer as características do movimento, ter bons olhos, cérebro, e pronto. No entanto, a partir de Duchamp, que chamou a atenção para uma arte mais conceitual que de retína, as coisas se complicaram. Essa obra de Duchamp só faz sentido no seu conceito original, e se não se o conhece, dificilmente ela é considerada obra de arte. E isso se desenvolveu a níveis muito grandes, onde para uma análise mais confiável, é necessário conhecer mais obras do artista, conhecer um mínimo de sua bibliografia, e muitas vezes apelar para entrevistas e escritos dele, senão não há sígnos em comum o suficiente para que se esclareça o que se quer. Um artista desses, pelo menos é como vejo, é Joseph Albers. Embora muito bom, suas performances era por demais obscuras para que se tivesse qualquer certeza sobre o que se fala. Um exemplo é uma performance que fez com um coelho morto, alguns sinais ocidentais e orientais. Em dado momento, ele se achega a uma placa de ferro e a chuta. Depois revelou que esse ato, chutar a placa, falava sobre a dura e fria jornada transiberiana. Óbvio, não?

Ouvi numa palestra certa vez um comentário a esse respeito, onde se falou que na arte contemporânea, os artistas acabaram criando "idialetos", ou seja, uma linguagem que ele e alguns compreendem, e entender um artista acaba sendo entrar no seu mundo, no seu íntimo e desvendar seu subjetivo. O foco às vezes acaba saindo da obra e passando a seu próprio criador. Esse é um dos pontos pelo qual uma bienal de são paulo é tão incômoda para a maioria das pessoas. E hoje, o que não é entendido, é rechaçado. Simples assim.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

...pós-minimalismo...

Devo pedir desculpas... Sim. Conheci faz pouco tempo um "novo" termo (entre aspas porque, afinal, tudo hoje em dia possui um 'pós' dele mesmo...daqui a meses, teremos os pós-blogs, pós-windows, pós-sorvete-de-limão...)... não sabia que existia o pós-minimalismo, mas de qualquer maneira, não muda muito os tópicos anteriores.

O pós-minimalismo é a apropriação das propostas estéticas e estilisticas do minimalismo, adicionando um "quê" conceitual do artista. Em geral, as obras minimalistas são, como colocado anteriormente, inserções estéticas em ambientes específicos, onde a obra é a percepção fenomenológica do observador em relação à obra. Isso em linhas bastante gerais. O pós minimalismo é a expanção desse universo, com um conceito inerente ao objeto. Exemplos de artistas pós-minimalistas: Eva Hesse (possui um post nesse blog), Richard Serra, Bruce Naumann, etc. Bem que eu desconfiava que a proposta deles acabava transgredindo o basicão do minimalismo puro...

O trabalho, Head Fountain, ao lado é do artista Bruce Naumann, e foi apresentado na Bienal de Veneza em 2007. O artista possui forte ligação com a "process art", arte do processo, onde, obviamente, o processo do fazer artístico é o fundamental, a obra de arte está na ação. Daí sua ligação com o minimalismo, primeiro movimento a chamar a atenção à "inter-ação" entre artista, obra e ambiente.
Trata-se de um trabalho bastante enigmático, de, não nego, difícil leitura. E demorou um bom tempo até eu chegar a alguma proposta de idéia do trabalho. É, no entanto, um trabalho presencial, já que multi-sensorial (em especial visual e auditivo).
A fonte, o objeto fonte, é tido como uma das primeiras formas de arte pública, e consequentemente, remete a universos públicos, com certo grau de interação de pessoas. A obra, no entanto, é composta de uma única pessoa, ou pelo menos o indício de sua presença em algum momento. Sua marca, seu rosto, sua identidade. A mascara possui uma mangueira na boca, que incessantemente, despeja água dentro de um tanque, onde há uma torneira, na qual a mangueira se liga. O movimento claramente é infinito, a água gira no mecanismo, a que cai é a mesma que logo mais sairá da torneira.
O jogo interessante no trabalho é verificar a ação total. A água sai pela boca, ou entra pela boca (já que se trata de um negativo de um rosto)? Trata-se de um interior, ou exterior? Onde é um, onde é outro? Ou melhor, é tudo questão de referencial? É tudo relativo? Qual é a verdade? De qualquer forma, a verdade está na cara: uma mascara de gesso, com uma mangueira na boca, despejando água num tanque. Alguém duvida disso? E, ligando ao fato de ser uma fonte de uma pessoa, a obra funciona como um "diálogo solitário", ou seja, uma pessoa que absorve o que "sai" apenas da própria boca. Ou isso também depende do referencial?
Para terminar, uma frase do artista: "If I was an artist and I was in the studio, then whatever I was doing in the studio must be art. At this point art became more of an activity and less of a product." - Bruce Naumann

segunda-feira, 19 de maio de 2008

...tal pai, tal filho...

Constantin Brancusi, há quem diga, paradoxalmente, foi um minimalista. Bobagem. Seus trabalhos datam do início do século XX, contemporâneo a Rodin. No contexto em que se encontrava, é impossível o encaixar em alguma vanguarda. Não é cubista, nem expressionista, menos ainda geométrico, não é futurista, etc. Sua obra é única.

É comumente associado ao minimalismo pela sua linguagem limpa, sem adornos, sem firulas, nem qualquer coisa que ditraia o olhar do observador à forma e conteúdos básicos de seus trabalhos. No entanto, a linguagem industrial, ou a serialização, ou mesmo o diálogo da obra com o entorno, não existem em geral nos trabalhs de Brancusi. Há materiais que se aproximam mais, mas um link que poderia chamá-lo de minimalista, não.

Mas também não se pode negar que tenha sido forte influência a artistas da estética minimal, como o próprio Carl Andre afirma (este desenvolveu trabalhos que remetiam e se relacionavam com a coluna infinita de brancusi, por exemplo). Já foi postado algo sobre ele.

Esse trabalho do artista chama-se "Passaro no Espaço". Possui variações em outros materiais do mármore. A beleza do trabalho está na simplicidade da forma como brancusi representa uma ave. Não a expõe claramente ao observador, não escancara seu conteúdo, mas deixa apenas signos do que seria. Ave no espaço remete instantaneamente a vôo, a movimento, mas ao mesmo tempo, estabilidade, graça. O sígno escolhido pelo artista para expressar todas essas características é precisamente um rasgo no espaço, um traço de um momento instantâneo que uma ave cortaria determinada região, associado a leveza do próprio material que, embora seja pedra, é leve ao olhar, e liso e quase que macio ao tato visual. O olhar vai deslizando, escorregando pelo entorno do trabalho, que possui linhas bastante suaves, mas decididas.

Há um site no nome do homem, mas que servirá apenas pela sua história e livros sobre ele...


E aqui, link para post no Blog do Noblat no qual usa trecho desse post sobre Brancusi, complementando-o com um pouco da sua história.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

...minimalismo tupiniquim...

O título é apenas uma ironia. O Neoconcretismo não realmente é uma versão brasileira do movimento americano, mas partilha de muitos pontos. Um deles é a crítica ao positivismo na arte, defendendo a fenomenologia, dessa forma assumindo ao trabalho artístico características subjetivas tanto inerentes ao material quanto ao observador que visita a exposição.


O Neoconcretismo é a famosa briga da arte no rio contra a paulistana, onde dominavam os concretos. Picuinhas à parte, o Neoconcretismo é praticamente a primeira tendência moderna completamente brasileira, desenvolvida a partir de tendências européias.

Os pontos divergentes do minimalismo americano e do neoconcretismo é, além de outras coisas, no ponto quanto ao papel da indústria no trabalho. Enquanto os minimalistas lançavam mão dessa não só em seus materiais, mas no modo de contruílas, os neoconcretos negam a indústria e seu papel dentro de uma obra de arte, reagindo dessa forma a um dos pontos do construtivismo.

Ambos também assumem em suas obras o quesito tempo. Os construtivistas, como Naum Gabo, o fizeram introduzindo motores e movimento em suas obras. Já o minimal e o neoconcreto o fizeram introduzindo o observador no contexto da obra, sendo seu tempo de interação e de observação da obra o ponto diferencial.

A obra acima é de Hélio Oiticica, mas não encontrei seu nome. Visitem a página da sua retrospectiva que aconteceu na Tate Modern , em londres.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

...bolhas ambientalóides...

Não, não esqueci que iria falar de um artista português, mas é que procurando uma boa exposição para ir, achei no site do Centro Cultural Banco do Brasil uma exposição da artista Sonia Guggisberg , e pesquisando mais sobre seus trabalhos, não resisti e decidi postar algo sobre ela.

Segundo o site do próprio banco, Sonia é uma artista da década de 90, com algumas exposições importantes no curriculum, e um trabalho bastante consistente. Por meio de inserções inusitadas, interferências, e instalações, aborda um tema bastante em voga no circulo ambientalista, que é o problema da água. Não é a primeira artista a tratar dele, Cildo Meireles já o fez em seu trabalho "Elemento desaparecendo, elemento desaparecido", trabalho no qual cria sorvetes de água e os vende ou dá a quem quiser, com uma frase no palito "elemento desaparecendo", que depois de completamente consumido, se pode ler "elemento desaparecido", trabalho esse que inclusive esteve "exposto" (sé é que se pode falar assim dele...) na no itaú cultura no início de 2008.

Embora ambos tratem da água, a abordagem acaba sendo diferente. Cildo coloca-a como algo inerente ao homem, o faz consumir seu objeto de arte, que só existe por certo tempo. Ou é devorado pelo "consumidor" de arte, ou se desfaz por si só. Já Sonia, em sua série Bolhas Urbanas (2006-2007), usa-a como material parte de suas obras, que podem ser permanentes, embora mutantes. Possui um carater muito mais visual que interativo.
São como que oasis em meio à selva de concreto, isolados por finas e transparentes camadas plásticas, que permitem que de fora se veja o interior, se veja as gotas de água que se condensam na superfície interna da bolha pela evaporação, ao mesmo tempo, incitam ao toque, pois parecem moles, frios, etc, atraíndo o observador a aproximar-se, parar, reparar, afinal, são plasticamente bastante belas. Possuem uma forte vitalidade, pois remetem às estufas onde se criam plantas, ou mesmo a ambientes ideais para proliferação de seres. É um lugar deslocado, isolado, ao mesmo tempo que inserido e atuante na paisagem.
Há mais sobre a artista no Canal Contemporâneo.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

...objetos expressivos...

Não estou postando tanto quanto queria e deveria, mas... Vamos que vamos! Prometo no próximo post colocar algum artista português, já que Portugal tem entrado razoavelmente bastante nesse deficiente blog. Por enquanto, voltemos ao minimalismo.

Pode-se considerar Jasper Johns como um dos pais do minimalismo, junto com Robert Rauschenberg, artsta comentado em post anterior. Ambos bastante influenciados por John Cage, trabalham com um tipo de arte chamada Assemblages, que são colagens com elementos tridimensionais. Essa obra ao lado,
target with four faces, junto com a bandeira americana são as mais conhecidas obras de Johns. Sua obra influenciou fortemente a pop art, assim como o minimalismo, mas ele mesmo não fez parte de corrente artistica nenhuma.

O ponto de contato entre John e o minimalismo está como que na "dessacralização"da obra de arte. Johns cria objetos, abre mão da pintura pura, ou da escultura pura, assim como o minimalismo. No entanto, coloca em sua obra seus traços pessoais, afinal, seus alvos são pintados à mão, assim como seus elementos 3D. O minimalismo, pelo contrário, joga a execução da obra à indústria, pois querem a padronização e a serialização.

No trabalho acima efetua essa mistura de elementos, colocando juntos um alvo pintado por ele mesmo e quatro rostos de pessoas moldados em gesso. Embora há quem diga que o próprio artista disse não haver significado algum por trás do trabalho, este acaba remetendo a coisas que podem ser interpretadas e oferecer um sentido maior ao trabalho.

Na parte superior, quatro rostos. O que chama a atenção é não possuirem olhos, tornando-se rostos "assexuados", e inexpressivos. Acabam contrastando com o alvo abaixo, que por possuir os traços do artista, ganham grande expressividade, extravasando o que seria um simples alvo, onde se atiram dardos, e de certa forma, ironizando o expressionismo abstrato americano. Ironizando porque, ao trabalhar com a expressão, John a utiliza num "elemento" geométrico e frio como um alvo, algo por si inexpressivo. Mistura seu mundo subjetivo ao objetivismo convencional que se coloca num "alvo". E, o contrário do que colocava o expressionismo abstrato, onde a expressão é algo do homem e inerente a ele, John tira todo sentimento de seus rostos, tornando-os como que os próprios alvos: homens sem expressão não aparentam sofrer com as ações externas. Dardos jogados batem, prendem, furam, mas aparentemente não mundam sua condição geral, a não ser que se olhe de perto, onde marcas permanecerão indefinidamente. Assim, a verdadeira expressão humana não esta propriamente na sua exteriorização, pois exteriorizar algo subjetivo é tentar objetivar o sentimento. A verdadeira expressão está dentro do homem, e lá permanece.

Para mais sobre John, vale entrar no site do MoMA.

domingo, 13 de abril de 2008

...profissão: estudante...

Dias 5 e 6 aconteceram na Casa de Cultura de Santo Amaro uma exposição organizada por 5 alunos do curso de Artes Visuais de São Paulo. Como estudantes, um assunto certo de abordagem é a arte. A arte falando da arte. Por que assunto de abordagem certa? Ora, enqunato estudantes, eles necessitam de conhecer os "limites" da arte, seu futuro campo de atuação, questionando sua validade, e outros pontos importantes.

"!", 2007, de Bruna Kim Oshiro, é uma xilogravura bastante interessante sobre esse questionamento. A Xilogravura é um suporte, um meio de fazer, bastante interessante, mas de uma tradição pré-moderna, onde a imagem era, junto da escultura, o que se fazia nas artes visuais. Os períodos moderno e pós-modernos ampliaram essa gama de meios, agregando a imagem e a escultura as instalações, as video-artes, web-art, land art, object art, performances, etc. Desse modo, ao questionar o terreno da arte contemporanea, Bruna coloca um meio que não é mais tão comum à arte contemprânea. Um exemplo disso encontra-se no livro "Rumos", do Itaú Cultural, onde diversos críticos de arte viajam o Brasil para traçar os Rumos das artes plásticas dos jovens artistas. E o que eles classificavam como modos "avançados", e não parados no tempo, eram de estudantes performáticos e que trabalhavam com instalações, como se o campo artístico contemporãneo devesse se restringir a esses dois. Ora, o trabalho de Bruna de certa maneira brinca com esse tipo de posição. Na imagem, vemos a figura dos olhos da famosa "Monalisa", de DaVinci, quadro clássico do renascimento, adorada por todos no mundo inteiro (às vezes adorada até demais...). Os olhos da Musa se encontram numa fresta, espiando, averiguando, bisbilhotando o que se faz do outro lado, ou seja, numa sala de arte contemporãnea, como que se perguntando: "que acontece? Qual é o meu lugar nesse local? Aqui eu não sou arte", dando sentido ao nome exclamativo, num tom de espanto, frisando a pergunta que Jaime Lauriano, outro estudante, coloca abaixo do adesivo com o nome de cada obra: qual é o valor da imagem na arte contemporanea?

Há lugar? Deveria haver?

Para mais fotos da exposição, e trabalhos da estudante, acessem seu blog.

terça-feira, 8 de abril de 2008

...a ordem do caos...

Eva Hesse, nascida em 1936 e falecida em 70, é uma das artistas que mais mudaram e contribuiram para o panorama artístico de sua época. Com trabalhos nos mais diversos suportes, com os mais diversos materiais, sepre buscava a transgressão do que a limitava na arte e na sociedade.

Acessão II, 1967 , é um trabalho que mostra bem a força da artista. Composto de uma caixa Galvanizada, com milhares de tubos de borracha atrelados à suas paredes, é geralmente interpretado com um "quê" de feminilidade, um algo como um útero, ou algo que o valha.
Em vida, a artista nessa busca pela individualidade na obra de arte questionava os "modismos" artisticos de seu período, ou seja, o expressionismo abstrato, minimalismo e arte conceitual, em linhas gerais. Ora, Acessão II (acessão: ato ou efeito de acrescentar, de aumentar; adição, união; Dicionário Houaiss) pode ser lida de certo modo como uma reação a essas correntes, não de reprovação, mas de questionamento.
A obra é constituida de um cubo aberto na área superior, com diversos tubos plásticos penetrados em suas paredes. Do ponto de vista dos materiais, são todos industriais, como na temática minimalista. Seu exterior é organizado de maneira bastante rígida, com linhas verticais e horizintais de "cabeças" de tubos plásticos, formando uma bela textura. No entanto, ao se observar do lado de dentro, impera a desordem, peças por sobre as outras, dependuradas, tortas, pendendo, eretas, etc, parecendo mesmo um paradoxo com relação à imagem exterior. Seria como que um questionamento do que se tem por "ordem" no universo minimalista, ou aleatório no universo expressionista. Ordem exterior nem sempre implica em ordem interior. E desordem interior não necessariamente se expõe como desordem.
Essa proposição deixa uma dúvida quanto à temática minimalista. Há autores que colocam o minimalismo como continuação do movimento moderno, onde a racionalidade é a base do trabalho. Há também a vertente daqueles, como Rosalind Krauss, que propõem o contrário: a ordem exterior vem do ambiente caótico interior. A obra de Eva Hesse acaba pondo em cheque esse racionalismo minimal, e essa aleatóriedade organizada. Ainda há que se chegar a conclusões melhores sobre o assunto, afinal, é para isso que estou na pesquisa (Meu Deus! Mais pergunta em aberto!...)
Por enquanto, conheçam mais da história da artista no site da UOL em sua passada pela nossa bienal.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

...paradoxo do espaço...


José Spaniol, artista brasileiro nascido em 1960 e formado em 1982 pela FAAP, é um artista daqueles que sua linguagem se encontra num grupo solitário: a dela mesma. Com uma vasta gama de abordagens artísticas, com diversos materiais, escalas, etc, possui uma unidade formal/conceitual consigo mesmo, sendo difícil classificá-lo num grupo. Mas não é de classificações que a arte vive. Mas de obras de grandes artistas.

Colunas, de 2003, é um fabuloso trabalho que prefere se manter como que escondido ao invés de roubar a cena. Segundo o próprio artista, ao ser convidado para expor nessa sala, já sabia o que faria com ela: a sala possuia 6 colunas desalinhadas e aleatórias, que há muito incomodavam o artista do seu propósito de ser daquela maneira. Então resolveu fazer nela Colunas. Acrescentou mais 30 colunas à sala, tomando o cuidado de deixá-las visualmente idênticas às já exitentes na sala. O resultado é um trabalho que some. Camufla-se sem chamar a atenção a si, mas a outros elementos da própria sala.
Comparo essa obra à famosa Coluna Infinita, de Brancusi. A diferença está na ordem das palavras: não culunas infinitas, mas infinitas colunas. Diferente do gigante mastro a céu aberto, as colunas de José Spaniol se restringem a uma sala, não ligam o céu à terra, idéia do infinito, mas sustentam uma área já humanizada, e atuam no sentido de mantê-la habitável. Mantém-se no plano real e não numa tentativa espiritual. Não tenta elevar o olhar do observador ao alto, impressionando-o com algo magnânimo, mas o força a observar simplesmente o espaço, justamente pelo fato de sua "presença ausente". Um paradoxo apontado pelo artista é o de que "quanto mais colunas, mais vazio ficava o espaço", e quanto mais matéria se coloca, mais o imaterial se revela.
O trabalho chama atenção ao espaço, matéria própria dos minimalistas. O grande trunfo da obra de José Spaniol é que ele nos mostra algo já óbvio, mas que a ficha não costuma cair: o grande trabalho do espaço se faz através da arquitetura. A Arquitetura demarca o espaço te forma tão ou mais eficiente que qualquer obra minimalista produzida, pois condicionam de maneira inconsciente a vivência do homem, semelhante trabalho de Richard Serra, que em suas obras de certa forma "força" o espectador a ter uma reação inconsciente ao interagir com suas obras.
Para mais obras de José Spaniol, visite seu site.

terça-feira, 1 de abril de 2008

...pesquisa espacial...

Depois de um longo período sem novas postagens por conta de um serviço que consumia grande parte do meu tempo, retorno às postagens. Espero que agora mais constante que antes.


E por conta de um novo projeto que inicio agora, postarei mais constantemente sobre artistas minimalistas, já que será meu tema de pesquisa por um bom tempo. Mesmo assim, obras pré-minimalistas, pós-minimalistas, etc, serão comentadas pois participam desse universo tão rico e fascinante da minimal art.

Donald Judd é considerado um dos primeiros artistas a iniciar o movimento minilamista. Porém, ele, entre outros artistas de sua época, não se consideravam como tal. No entanto atribuir uma "classificação" a artistas não é simplesmente para separá-los num grupo e como que retirá-los do grande campo geral das artes plásticas, mas para facilitar o entendimento de seus trabalhos, uma vez que há características mais gerais em seus trabalhos e outras mais específicas, que os diferem dos demais.

O trabalho de Judd, assim como dos outros artistas minimalistas, está intimamente ligado ao processo industrial: objetos seriados, com materiais não comuns ao universo artístico, mas ao universo industrial e do cotidiano das pessoas. No trabalho ao lado, "Sem título", é possível observar essas caacterísticas: "quadrados" de mesmo tamanho, de disposições idênticas, e intervalados por espaços milimetricamente arranjados. Seu material é o alumínio nas laterais das peças, e acrílico nas bases e coberturas, permitindo uma visualização completa dos objetos: tanto interna quanto externa. O uso do acrílico colorido demonstra uma das pesquisas visuais próprias de Judd: a percepção espacial em de meios não usuais. A luz penetra nas peças, mas pela disposição em pilha dos objetos, a sombra predomina, e a incidência da luz é diferente em cada objeto, a pesar de serem iguais. Segundo David Batchelor, essa é uma constante nos trabalhos de Judd: muitos deles são parecidíssimos, mas não iguais, pois o que Judd pretende é mostrar como diversos materiais em diversas cores e diversas formas interagem entre si e o ambiente. Não há um modelo de trabalho, um padrão, mas diversos trabalhos que interagem de certa maneira entre si, mantendo sua leitura própria e única. Para ilustrar esse ponto, acrescentei uma foto da mesma linha de esculutras em pilha. É clara a divergência que cada peça possui e as diferentes formas que mabas interagem com o ambiente.

Para mais trabalhos de Judd, visitem o site da Judd Foundation.